Agronegócio
Déficit de armazenagem de grãos cresce e preocupa setor no Brasil
Produção avança mais rápido que a capacidade dos armazéns, enquanto produtores defendem mais crédito
O Brasil enfrenta um descompasso crescente entre a produção de grãos e a capacidade de armazenagem. Enquanto a produção avança cerca de 17 milhões de toneladas por ano, os investimentos acrescentam entre 5 milhões e 6 milhões de toneladas anuais à capacidade estática. O resultado é uma diferença potencial de até 12 milhões de toneladas por ano.
O cenário foi discutido durante o Fórum Mais Milho, promovido pela Abramilho, e preocupa principalmente as cadeias de milho e sorgo, que têm menor valor agregado e maior exposição aos custos logísticos.
Durante o evento, Eduardo Marcusso, coordenador-geral de Avaliação de Políticas Agropecuárias do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), apresentou dados sobre a armazenagem brasileira. Segundo ele, o déficit nacional já supera 130 milhões de toneladas e apenas cerca de 15% da capacidade estática está localizada dentro das propriedades rurais.
As regiões que concentram a produção também estão entre as que apresentam maior necessidade de infraestrutura. No Sul, por outro lado, há maior quantidade de armazéns, mas com menor capacidade individual.
Para Paulo Bertolini, presidente da Abramilho, o problema é ainda mais relevante para o milho e o sorgo devido ao impacto dos custos de transporte e armazenagem.
Segundo dados apresentados no fórum, o Brasil aumentou a produção de grãos em cerca de 13 milhões de toneladas por ano nos últimos 15 anos. Considerando apenas a última década, o crescimento chegou a aproximadamente 17 milhões de toneladas anuais, enquanto a capacidade de armazenagem avançou entre 5 milhões e 6 milhões de toneladas por ano.
Bertolini também destacou o avanço da industrialização do milho. Cerca de 70% da produção já é destinada ao processamento no país, enquanto 30% segue para exportação. Com o crescimento de segmentos como etanol de milho e produção de DDG, aumenta também a necessidade de manter estoques durante todo o ano.
Crédito ainda é um desafio
Os participantes do painel apontaram que o problema não está apenas na existência de linhas de financiamento, mas no acesso efetivo aos recursos.
Dados apresentados no evento mostram que 25% dos agricultores não conhecem as linhas de crédito disponíveis para armazenagem. Ao mesmo tempo, 72% afirmam que investiriam na construção de armazéns caso as taxas de juros fossem menores.
André Dobashi, vice-presidente da Aprosoja MS, defendeu a criação de estruturas menores e mais distribuídas dentro das propriedades. Segundo ele, o modelo poderia reduzir o valor necessário para cada investimento e aproximar a armazenagem das regiões produtoras.
Fabrício Rosa, diretor executivo da Aprosoja Brasil, também defendeu financiamentos com prazos maiores, menos burocracia e condições compatíveis com o retorno dos investimentos.
Armazenagem dentro das propriedades
Além de reduzir gargalos logísticos, a armazenagem própria permite que o produtor tenha maior controle sobre o momento da venda. Sem estrutura adequada, parte da produção precisa ser comercializada logo após a colheita, quando há maior oferta e pressão sobre preços e transporte.
A comparação com os Estados Unidos também foi apresentada no debate. Segundo Bertolini, mais de 60% da capacidade de armazenagem norte-americana está localizada dentro das propriedades rurais. No Brasil, essa participação permanece próxima de 15%.
Para Eduardo Marcusso, entretanto, não basta ampliar a capacidade total. Os investimentos precisam ser direcionados às regiões onde há maior déficit entre produção e infraestrutura.
O setor também defende mudanças regulatórias e mecanismos específicos de financiamento e garantia para estimular novos projetos.
Para os participantes do Fórum Mais Milho, a armazenagem deixou de ser uma estrutura complementar à produção e passou a ser estratégica para a competitividade do agronegócio, a redução dos custos logísticos e o avanço da industrialização dos grãos no Brasil.