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A mineira que sabe o que quer

Atualizado em: 15 de August de 2026 às 12:10
Ivani Cardoso Enviar e-mail para o Autor

Foco: Cynthia Ruas foi nomeada Superintendente de Sustentabilidade, Pessoas e Inovação da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) 

Cynthia Ruas foi nomeada Superintendente de Sustentabilidade, Pessoas e Inovação da Agência Nacional de Transportes Terrestres quando estava grávida de 35 semanas. Claro que a volta depois do nascimento de Martin não foi fácil com muito trabalho acumulado, mas a maternidade, que também inclui Maitê, 5 anos, tem sido exercida com dedicação e equilíbrio: “Eu levei meu bebê com sete meses para duas viagens profissionais, inclusive para a COP 30, a vida das mulheres é mais desafiadora, mas é possível compatibilizar”, comenta.

Há 13 anos atuando na ANTT, órgão federal em que passou por vários cargos nas áreas regulatória e de infraestrutura, Cynthia tem 39 anos e gosta muito do que faz, está sempre disposta a aprender e às voltas com novos projetos. Mineira de Belo Horizonte, passou a infância em Sete Lagoas e na juventude veio para Brasília com os pais, que já tinham morado na cidade (suas duas irmãs são brasilienses), mas voltaram para Minas quando a avó materna ficou doente.

Ficou dividida entre Direito e Administração, entrou nas duas faculdades e começou os dois cursos, mas se encantou com a primeira e resolveu continuar, se formando pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). No início da faculdade começou a estagiar na área de Direito da Concorrência e foi tomando gosto. Depois, ainda como estagiária foi para a Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça. Convidada para assumir um cargo comissionado, continuou trabalhando na equipe, o primeiro trabalho com carteira assinada.

O aprendizado foi grande: “Eu estava na área de investigação de cartéis, fazia busca e apreensão nas empresas, juntava provas e, se fosse o caso, fazia denúncias por práticas anticoncorrenciais, atribuição que hoje é feita pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).”

Depois aceitou o convite de retornar ao Trench Rossi Watanabe, grande escritório multinacional de advocacia, para atuar no mesmo setor, só que defendendo as empresas. “Eu passei pelos dois lados, isso me deu maturidade para lidar com várias situações e procurar formas de resolver os problemas. Lembro que eu minha amiga Lorena trabalhamos em um caso de acordo de leniência relevante e de repercussão mundial . Para nossa surpresa, no final do ano recebemos um e-mail em que estávamos entre as três advogadas do Brasil que tinham mais horas de trabalho.”

Mesmo feliz com esse retorno, Cynthia percebeu que algo não estava fazendo sentido: “Será que é isso o que eu quero na vida? Conversei com Rafael, meu namorado e hoje meu marido , e resolvi sair e fazer concurso. Essa conversa foi em janeiro de 2013, e no dia 31 de dezembro do mesmo ano eu estava entrando em exercício como especialista em regulação da ANTT.”

Enquanto estava fazendo o curso de formação conheceu a pessoa responsável pela área de concorrência e foi conversar com ela para falar de sua experiência anterior e do quanto poderia contribuir. “Deu certo e eu fui assumindo outros cargos técnicos, de coordenação, gerência, chefia de gabinete, até chegar ao último cargo técnico da agência, de superintendente. O bom é que a ANTT dá essa oportunidade de crescimento e meu foco saiu da concessão de rodovias e ferrovias e passou para a pauta de sustentabilidade e inovação, e também pessoas. Tenho cerca de 70 pessoas na equipe, entre elas duas grandes amigas, Claude Soares e Ana Beatriz Castro que vieram pela área de sustentabilidade.”

Cynthia é muito envolvida na área de pessoas: “Tem a parte burocrática, mas eu gosto muito de atuar no desenvolvimento das pessoas, manter a qualidade de vida no trabalho. Na área de sustentabilidade, nossa proposta é bem concreta, com entregas bem racionalizadas. Nossas concessões de rodovias e ferrovias são realizadas com base em padrões de desempenho do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que são parceiros contratados pelo Governo Federal para fazer a estruturação dos projetos.”

Ela conta que a equipe, com expertise nas áreas técnicas de rodovias e ferrovias, via que os padrões existentes não estavam sendo obedecidos, com vários gargalos existentes egrandes desafios. “Desenvolvemos uma tabela de requisitos que as empresas precisam preencher para poder demonstrar que elas estão de fato de acordo com os parâmetros de sustentabilidade da Resolução 6057/2024.”

Um destaque foi a criação do Corredor Logístico Sustentável Multimodal com a concessionária EPR Litoral Pioneiro, em um trecho da BR-277 que desce para o Porto Paranaguá. “Esse trecho de Curitiba até o Porto tem algumas questões de neblina e incêndios, dependendo da época do ano. Trouxemos soluções de mudanças na iluminação e ponto de parada e descanso para evitar filas, por exemplo, tudo com avaliações e fiscalização. Deu muito certo e o modelo pode ser replicado em qualquer rodovia com porto próximo. Abrimos um edital para que qualquer concessionária apresente sugestões para implementação. Agora estamos iniciando outro projeto na BR-101 até o posto de Itaguaí e outro na BR-163 ligando o Porto de Miritituba. “

Mesmo com tanto trabalho, Cynthia não abre mão de priorizar a família. Com filhos pequenos tem a sorte de contar com o apoio do marido. “Eu já acordo pensando na rotina e na logística do dia. Faço questão de estar por perto, manter momentos de qualidade ao lado deles. Eu penso que até o meu trabalho é uma forma de dar bons exemplos. Afinal, uma agência reguladora existe para trazer boas práticas e incentivar os setores regulados a fazer sempre o melhor, ainda mais com essa pauta de sustentabilidade.”

Ela se obriga a praticar atividade física para manter o corpo e a mente funcionando. Entre seus livros de cabeceira: Fora de série – Outliers: Descubra por que algumas pessoas têm sucesso e outras não, de Malcolm Gladewll, e Freakonomics: O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta, de Steven D. Levitt. “Esse segundo é muito interessante para o momento atual, ele mostra como o mundo vê e interpreta estatísticas. Vejo pessoas virando autoridades digitais em vários assuntos, masos dados devem ser interpretados. É preciso tomar cuidado com o que se fala.”

 

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