Navegação
Biografia de Fábio Fontes registra décadas de transformação da Praticagem
Livro será lançado neste sábado (29), em Santos, e reúne histórias da trajetória do prático, que já realizou cerca de 30 mil manobras e acompanhou mudanças tecnológicas e operacionais no complexo portuário
Quando entrou para a Praticagem de São Paulo, em 1969, Fábio Mello Fontes ainda precisava lidar com a desconfiança de comandantes que consideravam sua pouca idade incompatível com a responsabilidade de conduzir grandes navios. Quase seis décadas depois, a realidade é outra. O prático continua em atividade e acompanhou uma transformação profunda na operação do Porto de Santos, no litoral paulista, que passou de embarcações de pouco mais de 120 metros para navios de até 366 metros de comprimento.
Essa trajetória, marcada pela evolução da tecnologia, pelo crescimento das dimensões dos navios e por episódios que atravessam a vida profissional e pessoal, é contada no livro Fábio Mello Fontes, uma lenda dos Mares, que será lançado neste sábado (29), das 17h às 20h, na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos.
A obra foi construída a partir de entrevistas com o próprio biografado, familiares, amigos e práticos. A jornalista e colunista do BE News, Ivani Cardoso, é responsável pelos textos e pela edição da publicação ao lado da também jornalista Maria Fernandes Rodrigues. Segundo ela, a ideia surgiu a partir do contato frequente com as histórias contadas por Fontes.
“Acompanhamos muitas entrevistas do Fontes e sempre nos surpreendemos com as histórias que ele conta. A direção da Praticagem abraçou a proposta e deu certo”, conta Ivani.
Fontes, inicialmente, não acreditava que sua trajetória pudesse render uma biografia. Segundo Ivani, ele repetia durante a produção que sua vida era comum e que não haveria material suficiente para um livro. A percepção dos autores, no entanto, era justamente contrária.
“Ele tem uma vida intensa, passou por muitas aventuras na Marinha Mercante e como prático e é um homem apaixonado pelo mar e pelo que faz, tanto que continua em atividade”, afirma.

Prático já realizou cerca de 30 mil manobras e acompanhou mudanças tecnológicas e operacionais no complexo portuário
Do apito à alta tecnologia
A própria trajetória profissional de Fontes ajuda a dimensionar a transformação da Praticagem. Quando começou, os navios que chegavam ao complexo santista tinham, em média, entre 120 e 140 metros de comprimento. Os rebocadores eram considerados inadequados para as necessidades da época, os cais não contavam com defensas como as atuais e os práticos sequer dispunham de rádios portáteis VHF.
A comunicação com os rebocadores era feita por meio de códigos sonoros. Fontes usava um apito de juiz de futebol para transmitir instruções ao rebocador da proa, enquanto o próprio navio utilizava seu apito para a comunicação com o rebocador da popa.
O calado máximo permitido para a entrada no porto durante as marés altas era de 9,40 metros. Atualmente, a Praticagem opera com navios de até 14,5 metros de calado e 366 metros de comprimento. “Certamente a tecnologia” foi a mudança que mais alterou a rotina da praticagem, afirma Fontes.
Segundo ele, a Praticagem de São Paulo passou a incorporar equipamentos e sistemas capazes de registrar informações como correntes, ventos e marés, além de aprimorar a coordenação do tráfego marítimo.
Um dos exemplos é o Centro de Coordenação, Comunicações e Operações de Tráfego (C3OT), estrutura utilizada para acompanhar e coordenar a movimentação de embarcações no complexo.
Para Fontes, porém, a tecnologia não substitui a experiência do profissional. “Os equipamentos sofisticados colocam a Praticagem de São Paulo em primeiro plano no mundo. Registram as correntes, ventos e marés, mas são apenas ferramentas da Praticagem, que conta com a experiência e habilidade do prático para conduzir as manobras”, afirma.
Navios três vezes maiores
O crescimento das embarcações também exigiu mudanças na preparação dos profissionais. Fontes afirma que os práticos passaram por cursos e simulações no Brasil e no exterior para se preparar para a chegada dos grandes navios.
Hoje, uma embarcação de 366 metros representa, segundo ele, aproximadamente três Vilas Belmiro (o estádio do Santos Futebol Clube), uma piscina olímpica e mais um metro de comprimento.
A comparação ajuda a dimensionar a evolução enfrentada pela Praticagem ao longo de sua carreira. Em mais de 50 anos na atividade, Fontes estima ter realizado cerca de 30 mil manobras.
Uma delas, realizada ainda no início da carreira, acabou se tornando uma das histórias que ajudam a explicar a construção de sua trajetória.

O bigode “provisório” ficou
Designado como prático preferencial do navio Eugênio C., Fontes sabia que o comandante afirmava que um prático deveria ter “algum cabelo branco”. O problema era que Fontes, então com cerca de 30 anos, não tinha nenhum.
“Eu tinha que dizer firme para ele que tinha um certificado de habilitação expedido pelo Governo Federal Brasileiro, que me qualifica para manobrar qualquer tipo de navio”, lembra.
Depois de algumas manobras, a resistência deu lugar à confiança e os dois acabaram se tornando amigos. O episódio também ganhou uma consequência curiosa: Fontes passou a usar o bigode que mantém até hoje. “Esse bigode que eu tenho veio daqueles tempos, para parecer mais velho”, brinca.
Uma história que vai além do porto
Para Ivani Cardoso, a biografia não se limita à carreira de Fontes. O livro também funciona como um registro de parte da história da Praticagem e das transformações do Porto de Santos, além de abordar a trajetória familiar do prático.
Entre os episódios registrados estão as viagens à Antártica a bordo do navio Professor Besnard, os desafios enfrentados na carreira e a relação com a esposa, Ed d’El-Rei Berbert Fontes, e os três filhos.
“As pessoas que convivem com ele também têm muito para contar. Acredito que o livro tem um pouco de tudo isso, além de uma bonita história familiar”, afirma Ivani.
As perdas da esposa e de um dos filhos também aparecem na obra. Para Fontes, separar a trajetória profissional da pessoal seria impossível. “A vida de um homem passa pelo lado profissional e pessoal. Minha família sempre foi prioridade e para ficar mais perto deles eu virei um prático”, diz ele.
Relembrar essas passagens, segundo ele, trouxe emoção e gratidão. “Posso dizer com segurança que sou um homem feliz e realizado”.
Mais do que reunir memórias pessoais, a autora avalia que a obra registra uma trajetória que se confunde com parte da própria evolução do setor portuário.
“Ele foi e continua sendo fiel à paixão pelo mar, que começou ainda pequeno ao ver os navios na Ponta da Praia, em Santos. Ele é um exemplo de como é importante seguir pela vida satisfeito e motivado com a profissão escolhida”, afirma Ivani.
A paixão começou ainda na infância, quando Fontes costumava observar os navios na Ponta da Praia. Décadas depois, permanece como elemento central de sua vida.
Aos mais jovens, o prático deixa uma recomendação que também resume parte da filosofia apresentada no livro: não escolher uma profissão apenas pelo dinheiro, além de manter-se atualizado, trabalhar em equipe, ter humildade, conhecimento, dedicação e disposição para entregar sempre o melhor trabalho.
A biografia chega às mãos dos leitores justamente quando Fontes continua ligado à atividade que escolheu ainda jovem. A diferença é que os navios mudaram, a tecnologia mudou, o porto mudou e a própria praticagem mudou. A paixão pelo mar, no entanto, permaneceu no mesmo lugar.

“Ele foi e continua sendo fiel à paixão pelo mar”, diz a autora sobre a vida do prático que se tornou livro