Mineração
Vale aponta entraves para Brasil avançar na mineração global
Estudo apresentado na Exposibram defende mais pesquisa geológica, agilidade no licenciamento, segurança regulatória e melhores condições de infraestrutura e energia
O Brasil reúne reservas minerais, capacidade produtiva e uma posição comercial favorável para ampliar sua presença no mercado internacional de minerais críticos, mas precisa acelerar projetos, ampliar o conhecimento geológico e melhorar as condições para novos investimentos. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira, 25, pelo CEO da Vale, Gustavo Pimenta, durante a Exposibram 2026, em Belo Horizonte (MG).
Pimenta apresentou um estudo encomendado pela Vale à Accenture, elaborado ao longo de um ano a partir da comparação entre diferentes mercados e a realidade brasileira. O trabalho identificou quatro agendas prioritárias e 15 iniciativas voltadas ao desenvolvimento de projetos, integração das cadeias produtivas, segurança institucional e geração de valor nos territórios.
Segundo o executivo, tendências como eletrificação, inteligência artificial, digitalização e mobilidade elétrica devem elevar a demanda por minerais nas próximas décadas. Ele citou projeções da Agência Internacional de Energia que apontam a necessidade de expansão da oferta global para acompanhar as transformações tecnológicas e energéticas.
“O nosso problema é de oferta, de capacidade de colocar esses minerais no mercado para atender à demanda crescente”, afirmou.
Na avaliação de Pimenta, a diversidade mineral brasileira e as relações comerciais mantidas com diferentes mercados podem favorecer o País em um cenário de maior disputa por cadeias de suprimento. Ainda assim, a participação brasileira na produção mundial de várias substâncias permanece abaixo do peso de suas reservas.
O executivo destacou que o Brasil ocupava a quarta posição mundial em valor da produção mineral em 2014 e caiu para a sétima em 2023. No minério de ferro, Brasil e Austrália produziam volumes próximos em 2010. Desde então, a produção australiana avançou para cerca de 1 bilhão de toneladas, enquanto a brasileira permaneceu próxima de 400 milhões.
Pimenta também citou a expansão da Indonésia no níquel e da República Democrática do Congo no cobre como exemplos de países que ganharam espaço no mercado mundial.
Outro obstáculo apontado é o baixo nível de conhecimento geológico. Segundo ele, cerca de 28% do território brasileiro está mapeado em escala considerada adequada, enquanto Austrália e Chile superam 70%.
Pimenta defendeu mais recursos para pesquisa mineral e levantamento do subsolo. Segundo ele, a Vale multiplicou por cerca de cinco seus investimentos em exploração e conhecimento geológico nos últimos dois anos.
Projetos mais rápidos
Uma das agendas do estudo trata do desenvolvimento de empreendimentos e do licenciamento ambiental. Segundo Pimenta, um projeto mineral pode levar cerca de 15 anos entre o início da exploração e a entrada em operação.
Entre as medidas sugeridas estão reforço das equipes dos órgãos ambientais, investimentos em tecnologia e capacitação, ampliação da pesquisa geológica e definição de regras para cavidades naturais subterrâneas.
O estudo também propõe selecionar dez grandes projetos com potencial para gerar investimentos, empregos e renda e estruturar processos específicos para sua análise. Segundo Pimenta, o último grande empreendimento licenciado no País foi o S11D, em Serra Sul, com capacidade de 80 milhões de toneladas e entrada em operação em 2016.
Outra frente envolve a integração entre mineração e indústria. O executivo defendeu condições para ampliar beneficiamento e processamento no Brasil, com melhorias em infraestrutura, tecnologia, energia e oferta de gás natural a preços competitivos.
Ao citar a produção de ferro briquetado a quente (HBI), insumo usado na fabricação de aço com menor intensidade de carbono, Pimenta afirmou que o preço do gás é uma barreira. Segundo ele, o insumo custa cerca de US$ 14 por milhão de BTU no Brasil e precisaria ficar próximo de US$ 5 ou US$ 6 para viabilizar determinados investimentos.
“Sem minério, não há refino”, afirmou.
Segurança regulatória
A terceira agenda está relacionada à estabilidade fiscal e regulatória. Pimenta destacou que projetos minerais exigem grandes volumes de capital e têm horizontes de várias décadas, o que torna a previsibilidade das regras um fator relevante na disputa internacional por investimentos.
“Quando colocamos R$ 1 para trabalhar em uma mina, esse investimento permanecerá lá pelos próximos 40 anos”, disse.
A quarta agenda trata da relação da mineração com os territórios. Segundo Pimenta, a contribuição do setor não deve se limitar ao pagamento de impostos. Ele defendeu maior participação das empresas nas discussões sobre diversificação econômica e desenvolvimento de longo prazo dos municípios mineradores, sem substituir as atribuições do Estado.