quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Editorial

Cruzeiros marítimos: oportunidades e o preparo necessário para aproveitá-las

Salvador (BA) e Ilhéus (BA) vão receber cerca de 179 mil passageiros de navios de cruzeiro a partir de outubro, a maior movimentação turístico-marítima da Bahia nos últimos anos e um sinal de que a estratégia da Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba) de aproximação com armadores e operadores está produzindo resultado. A temporada começa com o World Odyssey em 7 de outubro, uma embarcação universitária que percorre dez países, e ganha escala em novembro com navios de maior porte, como o MSC Divina em Salvador e o AIDAsol em Ilhéus. A Codeba, que administra os dois complexos marítimos, investe na modernização das estruturas de recepção e mantém diálogo ativo com o setor de cruzeiros. O palco está montado. O que acontece quando o passageiro desce a prancha de embarque é a variável que mais importa.

O setor de cruzeiros tem uma característica que o distingue de outras formas de turismo: o navio é simultaneamente o meio de transporte, o hotel e a maior parte do entretenimento. O passageiro paga a bordo a maior parcela de seus gastos – alimentação, bebidas, excursões organizadas pela própria companhia, atividades recreativas. O que sobra para o destino em terra é o que escapa desse ciclo de consumo fechado: compras em lojas locais, refeições em restaurantes fora do roteiro organizado, transporte autônomo, artesanato. Em destinos bem preparados, essa fatia pode ser expressiva; em destinos que não conseguem capturar o interesse do passageiro nas poucas horas que ele passa em terra, ela é marginal. Esses dois casos não se distinguem pelo número de navios que atracam, mas pela qualidade e pela diversidade da oferta que aguarda o visitante quando ele desembarca.

Salvador tem ativos turísticos que poucos destinos brasileiros conseguem reunir, como o Pelourinho, a gastronomia baiana, os museus, o artesanato, o carnaval fora de época. Ilhéus tem praias, a herança cultural do cacau e a associação com o escritor Jorge Amado, que atrai visitantes de vários países. Portanto, há atrativos. Mas o problema está na cadeia de serviços que converte o atrativo em experiência e a experiência em gasto. Transporte entre o terminal portuário e os pontos turísticos, guias com capacidade de operação em idiomas além do português, comércio local que aceita as moedas e os meios de pagamento dos passageiros estrangeiros, sinalização turística adequada e segurança percebida suficiente para que o visitante se mova com autonomia além dos roteiros organizados, cada um desses elementos determina quanto do potencial econômico da temporada se converte em renda real para comerciantes, prestadores de serviço e trabalhadores informais da cadeia turística baiana.

A Codeba faz bem ao investir na estrutura dos terminais e na relação com armadores. Mas a captura efetiva do valor econômico de uma temporada de cruzeiros exige articulação entre a autoridade portuária, as secretarias municipais e estaduais de turismo, o setor privado de receptivo e as associações de comércio dos bairros que recebem o fluxo de visitantes. Essa integração raramente acontece de forma sistematizada no Brasil. Cada ator otimiza sua parte sem que ninguém coordene o conjunto. O resultado típico é que o terminal recebe bem o navio, o passageiro desce, circula por duas ou três horas num circuito limitado e volta a bordo sem ter experimentado o que o destino tem de melhor. Não por falta de interesse. O motivo é a falta de organização da oferta.

A inclusão de Ilhéus no roteiro de cruzeiros é uma das notícias mais animadoras para o turismo do sul da Bahia. A cidade tem capacidade de absorver visitantes de alto poder aquisitivo, exatamente o perfil de passageiros de cruzeiros internacionais, e o cacau baiano voltou ao radar gastronômico global com o crescimento do mercado de chocolates finos, que usa o cacau do sul da Bahia como matéria-prima premium. Um passageiro que desembarca em Ilhéus e encontra uma rota estruturada de experiências ligadas ao cacau, da fazenda ao chocolate, com produtores locais, degustação e compra de produtos com certificação de origem, é um visitante que gasta, conta a experiência e volta. Ter essa oferta exige investimento e coordenação que vão além da atracação do navio. O setor público e privado da região têm, nessa temporada, a chance de começar a construí-la.

O turismo, em especial o de cruzeiros, é comprovadamente um indústria que gera grandes riquezas para as localidades visitadas quando há uma organização profissional entre o poder público e a iniciativa privada. Os navios estão chegando. A oportunidade se apresenta. Resta às autoridades, aos comerciantes e aos empresários de Salvador e Ilhéus perceberem o que se apresenta diante deles e estarem concretamente preparados para aproveitr os bons negócios trazidos por esses navios.

Compartilhe:
TAGS

Leia também