Infraestrutura
Data centers crescem no Brasil e desafiam setor elétrico
Senado aprovou nesta terça-feira (1º) o PL 278/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter
O Brasil deu mais um passo para se posicionar como destino de grandes investimentos em data centers, ao mesmo tempo em que amplia o desafio de garantir energia suficiente para sustentar a expansão da infraestrutura digital. O Senado aprovou nesta terça-feira (1º) o PL 278/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). O texto, aprovado sem alterações de mérito, segue para sanção presidencial.
A medida prevê a suspensão do Imposto de Importação, PIS/Cofins, PIS/Cofins-Importação e IPI na aquisição de equipamentos e componentes destinados aos centros de processamento de dados. A suspensão poderá durar até cinco anos e será convertida em isenção definitiva após o cumprimento das condições previstas no programa.
A iniciativa ocorre em um momento de forte expansão global da demanda por infraestrutura para computação em nuvem e inteligência artificial. Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 60% dos dados e da inteligência artificial utilizados no Brasil ainda são processados no exterior. A intenção do governo é reduzir essa dependência e estimular a instalação de estruturas de maior capacidade no País.
O incentivo, porém, vem acompanhado de exigências relacionadas à infraestrutura energética e ambiental. As empresas beneficiadas terão de atender à demanda contratual de eletricidade por meio de contratos de suprimento ou de autoprodução a partir de fontes limpas ou renováveis.
É justamente nesse ponto que a expansão dos data centers encontra um dos seus principais desafios.
Grandes instalações destinadas ao treinamento e à operação de modelos de inteligência artificial podem demandar múltiplos gigawatts de potência de forma contínua. Segundo o engenheiro elétrico do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE), Maurício Salles, um data center de 1 GW pode ter uma demanda comparável à produção de uma grande usina nuclear convencional.
A dimensão do consumo coloca os centros de processamento em uma categoria diferente da de consumidores tradicionais de energia. Além da quantidade de eletricidade necessária, essas instalações precisam de fornecimento estável e ininterrupto, o que aumenta a importância de fontes capazes de complementar a geração renovável variável.
O Brasil parte de uma posição favorável nesse aspecto. Em 2025, as fontes renováveis responderam por cerca de 87% da geração de eletricidade no País, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A participação elevada de fontes renováveis pode representar uma vantagem competitiva na atração de empresas que precisam reduzir a pegada de carbono de suas operações.
Por outro lado, a expansão da geração solar e eólica traz uma característica adicional ao planejamento: a variabilidade da produção ao longo do dia e das condições climáticas.
Nuclear pode complementar renováveis
Nesse contexto, a energia nuclear aparece como uma alternativa para ampliar a oferta de energia firme, sem abandonar a estratégia de expansão das fontes renováveis. “Ao contrário das fontes renováveis variáveis, as usinas nucleares podem fornecer energia firme, confiável e de maneira ininterrupta”, afirma Salles.
A geração nuclear brasileira ainda é pequena. O País possui duas unidades nucleares em operação e uma terceira em construção, todas em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. A ampliação dessa fonte, contudo, enfrenta desafios relacionados ao alto volume de investimentos, ao longo prazo de implantação e ao ambiente regulatório.
Uma das alternativas discutidas internacionalmente são os Reatores Modulares de Pequeno Porte (SMRs). Os modelos em desenvolvimento apresentam potências que podem variar de aproximadamente 20 MW a 300 MW e têm como característica a possibilidade de construção modular.
Para o setor de data centers, a tecnologia pode ganhar relevância justamente pela possibilidade de adicionar capacidade de geração conforme a expansão da demanda. Alguns projetos também utilizam sistemas passivos de segurança e soluções de resfriamento que podem reduzir a dependência de grandes volumes de água e de energia externa.
A tecnologia, entretanto, ainda está em estágio inicial de adoção comercial, com poucas unidades em operação no mundo e diversos projetos em desenvolvimento.
Incentivo fiscal vem com contrapartidas
O Redata estabelece que os benefícios tributários não serão concedidos sem compromissos por parte das empresas. Os data centers deverão direcionar pelo menos 10% do fornecimento efetivo de processamento, armazenamento e tratamento de dados instalado ao mercado brasileiro.
Também deverão cumprir critérios de sustentabilidade, atender à totalidade da demanda contratual de energia e apresentar Índice de Eficiência Hídrica para resfriamento igual ou inferior a 0,05 litro de água por kWh, medido anualmente.
O programa ainda exige investimentos no País equivalentes a 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno ou importados com benefício fiscal.
Para estimular a descentralização dos investimentos, empresas instaladas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ou em áreas de abrangência de agências de desenvolvimento regional, poderão ter redução de algumas dessas obrigações. Nesses casos, o direcionamento mínimo ao mercado brasileiro cai de 10% para 8%, enquanto o investimento obrigatório passa de 2% para 1,6%.
O texto também determina que pelo menos 40% dos investimentos em projetos e programas de fomento à economia digital sejam destinados a essas regiões.
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