quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

João Fortunato

Clique para ver mais

Articulista

O clima mudou, mas política não!

Nas eleições de outubro, pense uma, duas ou quantas vezes forem necessárias antes de escolher seu candidato. Avalie sua trajetória, sua atuação parlamentar, seus projetos e seu compromisso com temas que impactam diretamente a vida da população, entre eles a crise climática.

 Tempestades, ondas de calor extremo, tornados, estiagens prolongadas, inundações, tsunamis, erupções vulcânicas e terremotos. Fenômenos naturais sempre existiram, é verdade, mas muitos deles vêm ocorrendo com intensidade e frequência cada vez maiores. Não se trata do fim dos tempos nem da ira dos céus. Em grande parte, são os efeitos da mudança climática, que já deixou de ser uma previsão para se tornar a nova realidade do planeta.

Há décadas a ciência alerta para esse cenário. Os estudos são consistentes ao afirmar que a tendência não é de melhora, mas de agravamento dos eventos climáticos extremos. Ainda assim, durante muito tempo, governos preferiram ignorar esses alertas, frequentemente em nome de interesses econômicos imediatos. O resultado dessa negligência é conhecido: mortes de seres humanos e animais, destruição de patrimônio, impactos ambientais severos e prejuízos financeiros bilionários.

O Brasil não está imune a essa realidade. O Rio Grande do Sul voltou a enfrentar enchentes devastadoras; São Paulo e Rio de Janeiro registraram tempestades acompanhadas de rajadas de vento de grande intensidade; a Amazônia e parte do Nordeste convivem com secas cada vez mais severas, comprometendo a vegetação, a agricultura e o abastecimento de água. Os incêndios florestais que têm castigado países como França, Espanha, Grécia, Turquia e Alemanha também podem se repetir por aqui, tanto na Amazônia quanto no Pantanal. Se as projeções científicas se confirmarem, a vida das pessoas e a atividade econômica serão profundamente afetadas.

A ciência consegue prever cenários e estimar seus impactos. Cabe ao poder público transformar esse conhecimento em políticas de prevenção, adaptação e resposta. No entanto, para a população, a atuação das autoridades ainda se resume, em grande medida, ao envio de alertas por telefone celular e ao acionamento de sirenes. É importante avisar a população, mas isso está longe de ser suficiente. O cidadão precisa saber como agir, para onde ir, como proteger sua família e, quando possível, seu patrimônio e seu trabalho.

Nesse aspecto, o Brasil ainda está distante do ideal. Faltam planos de contingência amplamente divulgados, estruturas permanentes de acolhimento, treinamento das comunidades e investimentos em prevenção. As tragédias continuam atingindo, sobretudo, a população mais vulnerável, que vive em áreas de risco e dispõe de poucos recursos para enfrentar seus efeitos.

É justamente nesse ponto que o debate político se torna inevitável. A qualidade da representação parlamentar brasileira vem se deteriorando eleição após eleição. Muitos dos eleitos jamais tiveram atuação comunitária ou experiência na formulação de políticas públicas. Tornaram-se conhecidos nas redes sociais e transformaram popularidade digital em capital eleitoral. Como ironizam alguns, deixaram de ser apenas influenciadores para se tornarem “tiktokers” com mandato.

Enquanto isso, temas estruturantes, como adaptação às mudanças climáticas, prevenção de desastres, infraestrutura urbana, defesa civil e proteção ambiental, continuam ocupando espaço secundário na agenda legislativa. As redes sociais exibem intensa atividade, mas nem sempre essa exposição corresponde à efetiva produção parlamentar.

O Brasil já não pode tratar a crise climática como um tema periférico. O País precisa de representantes comprometidos com políticas públicas capazes de reduzir riscos, proteger vidas e preparar as cidades para um cenário cada vez mais desafiador. A mudança climática não é uma hipótese distante nem um projeto maligno reservado ao futuro. Ela já está entre nós. A porta foi arrombada, e seus efeitos são visíveis em todas as regiões do planeta.

Nas eleições de outubro, pense uma, duas ou quantas vezes forem necessárias antes de escolher seu candidato. Avalie sua trajetória, sua atuação parlamentar, seus projetos e seu compromisso com temas que impactam diretamente a vida da população, entre eles a crise climática. Independentemente de quem você escolher, acompanhe seu mandato. Utilize e-mail, redes sociais e todos os canais institucionais para cobrar projetos, votos e decisões que efetivamente beneficiem a sociedade.

Também é legítimo exigir que os recursos públicos, inclusive aqueles provenientes das emendas parlamentares, sejam destinados a obras de prevenção de enchentes, contenção de encostas, drenagem urbana, proteção ambiental, defesa civil e adaptação das cidades às novas condições climáticas, e não a interesses particulares ou meramente eleitorais.

A questão ambiental deixou de ser uma bandeira restrita a ambientalistas ou, como se dizia no passado, aos “bicho-grilo”. Hoje, ela diz respeito à segurança, à economia, à saúde pública e à sobrevivência das próximas gerações. Seu candidato precisa saber que você acompanha seu mandato e espera dele ações concretas em favor do interesse coletivo. Caso contrário, não apenas o presente será mais difícil, mas também o futuro daqueles que ainda estão por vir.

João Fortunato escreve para o BE News semanalmente. 

Compartilhe:
TAGS

Leia também