quarta-feira, 07 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

Adis Abeba: o Brasil chegou — agora precisa ficar

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) inaugurou, no último dia 2, seu primeiro escritório permanente no continente africano, em Adis Abeba. A escolha da Etiópia como sede não foi aleatória: o país é o segundo mais populoso da África, com 135 milhões de habitantes, capital da União Africana, hub de aviação continental com voo direto para São Paulo pela Ethiopian Airlines e porta de entrada para a Área de Livre Comércio Continental Africana, que reúne 54 países num mercado de mais de 1,4 bilhão de pessoas. A observação do embaixador Jandyr Ferreira dos Santos de que missões empresariais são importantes, mas a presença permanente cria algo diferente, continuidade, é a frase que resume o que muda com essa inauguração. O Brasil tem enviado delegações à África há décadas; o que faltava era o escritório que permanece depois que o avião parte.

A pauta exportadora atual revela a extensão do que precisa mudar. As exportações brasileiras para a Etiópia são compostas em 97,4% por óleos combustíveis de petróleo, uma commodity de baixo valor agregado que não representa, em termos de competitividade, aquilo que o Brasil tem de mais sofisticado para oferecer. As 59 oportunidades de exportação identificadas pela ApexBrasil, máquinas e equipamentos, produtos químicos, materiais de construção, alimentos, manufaturados e um projeto específico para o etanol de cana, são os segmentos em que o Brasil compete com vantagem real e que o escritório de Adis Abeba deverá perseguir com a continuidade que missões eventuais não conseguem criar. A distância entre os 97% de combustível e a diversificação que a agência projeta é o trabalho dos próximos anos, e é exatamente para isso que um escritório permanente existe.

A convergência de estruturas brasileiras em Adis Abeba é um ativo que o País raramente consegue mobilizar de forma coordenada. A Embrapa já mantém presença institucional na capital etíope, assim como a Agência Brasileira de Cooperação. Com a chegada da ApexBrasil, o Brasil terá num único ponto geográfico pesquisa agropecuária, cooperação para o desenvolvimento e promoção comercial, três funções que, quando coordenadas, criam a proposição de valor que diferencia o engajamento brasileiro do engajamento de potências que chegam apenas com capital e contratos. A Etiópia tem interesse declarado em agronegócio, produção de café, sementes oleaginosas, pecuária, bioenergia e tecnologias limpas, exatamente os setores em que a Embrapa tem décadas de pesquisa aplicada a condições tropicais que nenhuma instituição europeia ou norte-americana consegue replicar com a mesma credibilidade.

Mas o maior risco do escritório de Adis Abeba não é a falta de oportunidade — as 59 identificadas pela ApexBrasil são verificáveis e o mercado etíope está em expansão. O maior risco é o padrão brasileiro de chegar com entusiasmo diplomático e partir antes de concluir o ciclo comercial. Missões empresariais que produzem memorandos de entendimento sem seguimento, projetos-piloto que não escalam e estruturas de promoção comercial que dependem de ciclos políticos para manter orçamento são os obstáculos que transformam presença em símbolo e não em negócio. O escritório de Adis Abeba precisa de mandato claro, metas de resultado verificáveis, como número de contratos fechados, volume exportado por segmento, investimentos atraídos, e continuidade que sobreviva às trocas de governo que afetarão tanto o Brasil quanto a Etiópia nos próximos anos.

A AfCFTA — o acordo de livre comércio continental africano — é o ativo estratégico que torna a escolha de Adis Abeba mais valiosa do que a soma de seus atributos individuais. Um escritório da ApexBrasil posicionado na capital da União Africana, em país signatário do maior acordo de livre comércio do mundo por número de países membros, pode funcionar como ponto de entrada para toda a África Oriental e, progressivamente, para o continente. A China, a Índia, a Turquia e os Emirados Árabes já descobriram esse potencial e têm presença comercial na África incomparavelmente maior do que o Brasil. O escritório de Adis Abeba não coloca o Brasil em pé de igualdade com esses competidores, mas é o primeiro passo para uma estratégia que, se sustentada com consistência, pode capturar parcela crescente de um continente que será, nas próximas décadas, o maior mercado emergente do planeta.

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