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Hudson Carvalho

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O futuro não respeita favoritos

A formação executiva não se completa quando alguém simplesmente aprende algo novo. Ela ganha sentido quando o conhecimento transforma decisões, melhora resultados e aproxima pessoas capazes de construir, juntas, novas possibilidades.

A data é 11 de fevereiro de 1990. O local Tokyo Dome, no Japão. No centro da arena, sobe ao ringue Mike Tyson, para defender o título mundial dos pesos-pesados. Aos 23 anos, invicto: 37 vitórias, 33 por nocaute. Indestrutível.

Do outro lado James “Buster” Douglas, 29 vitórias, quatro derrotas, um empate e uma luta sem resultado. Bom boxeador, mas longe de ser considerado uma ameaça real ao campeão. As apostas chegaram a apontá-lo como azarão na proporção de 42 para 1. Vencer era inconcebível.

Havia, porém, um dado que não aparecia nas estatísticas. Vinte e três dias antes da luta, Lula Pearl, mãe de Douglas, morreu após sofrer um derrame. Era uma das pessoas que mais acreditavam em seu potencial.

Douglas poderia ter desistido. Poderia entrar no ringue apenas para cumprir o contrato. Poderia aceitar o roteiro inevitável. Mas decidiu lutar.

Durante boa parte do combate, controlou Tyson com movimentação, inteligência e golpes precisos. No oitavo assalto, recebeu um forte golpe e caiu. Tudo parecia voltar ao roteiro previsto.

Douglas, porém, levantou-se. Dois assaltos depois, derrubou Mike Tyson pela primeira vez em sua carreira profissional. O campeão não conseguiu se levantar a tempo.

No décimo assalto, 1 minuto e 22 segundos, Buster Douglas tornou-se campeão mundial dos pesos-pesados.

É tentador dizer: Ele venceu porque acreditou em si mesmo!

Mas, acreditar, apenas, não derruba campeões. A confiança e a preparação permitiram que continuasse lutando.

Douglas não venceu apenas pela força emocional produzida pelo luto ou pelo desejo de honrar a memória da mãe. Venceu porque compreendeu o adversário, estabeleceu uma estratégia e conseguiu executá-la sob enorme pressão.

Sua força interior encontrou correspondência em sua competência técnica. Nesse ponto a história ultrapassa o boxe.

Todos enfrentamos adversários que parecem maiores do que nós: mudança de carreira, transformação tecnológica, obsolescência profissional ou perda de espaço no mercado. Outras vezes, permanecem dentro de nós: medo, acomodação, insegurança e a perigosa convicção de que aquilo que sabemos continuará sendo suficiente.

Ser “caçador de mim” é procurar dentro de si a coragem necessária para avançar. Mas essa segue a trilha da disciplina.

No mundo profissional, isso significa aprendizagem contínua, qualificação profissional e capacidade de reinventar-se.

Barbara Oakley passou parte da juventude convencida de que não possuía aptidão para matemática e ciências. Escolheu inicialmente as línguas, aprendeu russo e serviu como oficial do Exército dos Estados Unidos. Ao trabalhar com equipamentos de comunicação, percebeu que a falta de conhecimentos técnicos limitava suas possibilidades. Decidiu estudar aquilo que considerava sua maior fraqueza.

Formou-se em Engenharia Elétrica, fez mestrado e doutorado e tornou-se professora e pesquisadora. Mais tarde, ajudaria milhões de pessoas por meio do curso Learning How to Learn.

Buster Douglas levantou-se durante uma luta. Barbara Oakley levantou-se diante de uma crença limitante.

Em ambos os casos, acreditar foi apenas o começo.

A transformação exigiu preparação.

É isso que significa lifelong learning: compreender que aprender não é uma etapa anterior à vida profissional, mas parte permanente dela. A qualificação profissional não pode ser uma reação tardia ao medo. Precisa integrar a rotina de quem pretende continuar relevante.

O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, estima que 39% das competências atualmente exigidas no trabalho deverão mudar ou tornar-se ultrapassadas até 2030. O relatório também aponta que, em cada grupo de 100 trabalhadores, 59 precisarão de treinamento, upskilling ou reskilling. Entre as competências que ganham importância estão inteligência artificial, big data, pensamento analítico, criatividade, resiliência, liderança e colaboração.

Não se trata apenas de aprender novas tecnologias, mas também e reaprender a pensar, liderar e decidir.

Essa realidade é especialmente importante para os líderes da infraestrutura brasileira. Portos, rodovias, ferrovias, aeroportos, aviação, energia, saneamento, mineração e telecomunicações sustentam o desenvolvimento econômico e social. Seus ativos são projetados para durar muitos anos, mas as tecnologias, os modelos de negócio, as relações de trabalho e as exigências da sociedade mudam em velocidade crescente.

Por isso, os executivos da infraestrutura precisam permanecer no estado da arte não apenas da tecnologia, mas também da liderança e do comportamento humano. Precisam compreender as transformações que alteram seus setores e, simultaneamente, saber construir confiança, negociar interesses, administrar conflitos e tomar decisões em ambientes cada vez mais complexos.

Na infraestrutura, conhecimento desatualizado não representa somente uma limitação individual. Pode produzir decisões equivocadas, comprometer recursos públicos e privados e retardar o desenvolvimento do País.

Os ativos da infraestrutura podem durar décadas. O conhecimento de quem os dirige, não.

Quem lidera setores que constroem o futuro não pode administrar o presente com o conhecimento de ontem.

É essa convicção que orienta a criação da BE Executive Academy, estruturada sobre três pilares: aprendizado de alto nível, aplicação imediata do conhecimento e networking de qualidade.

Porque a formação executiva não se completa quando alguém simplesmente aprende algo novo. Ela ganha sentido quando o conhecimento transforma decisões, melhora resultados e aproxima pessoas capazes de construir, juntas, novas possibilidades.

Cada época escolhe seus campeões invencíveis. Hoje, eles podem se chamar inteligência artificial, transformação digital, mudança geracional ou obsolescência profissional.

Buster Douglas não entrou no ringue apenas para enfrentar Mike Tyson.

Entrou como caçador de si mesmo.

O futuro não respeita favoritos. Respeita quem encontra coragem para se levantar — e humildade para continuar aprendendo.

Hudson Carvalho é diretor-executivo da BE Executive Academy, consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas e especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento executivo. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feira.

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