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Jornal BE News - Edição de Hoje

Portugal

Brasil é estratégico, e Portugal quer vender mais para Argentina, Uruguai e Paraguai

15 de September de 2026 às 14:47
Vicente Nunes Enviar e-mail para o Autor Público Brasil

Das exportações portuguesas para o Mercosul, 94,9% seguem para o Brasil. Com o acordo fechado com a União Europeu, Portugal vai explorar oportunidades nos demais países do bloco sul-americano

As empresas portuguesas estão diante de uma avenida de oportunidade com a entrada em vigor, em 1º de maio último, do acordo firmado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Além de reforçar a presença no Brasil, que hoje absorve 94,9% das exportações portuguesas para o bloco sul-americano, a meta é ampliar as vendas para Argentina, Uruguai e Paraguai, diz Paulo Rio, administrador da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP).

“Eu diria que o principal desafio [de Portugal] é também uma das maiores oportunidades: garantir que as empresas utilizem efetivamente o acordo e transformem as novas condições de acesso em negócios. Há margem para diversificar a presença portuguesa dentro do Mercosul”, afirma Rios. “Atualmente, o Brasil concentra mais de 90% das exportações portuguesas para o bloco e continuará naturalmente a ser o nosso principal mercado. Mas Argentina, Uruguai e Paraguai representam igualmente oportunidades que importa explorar”, acrescenta.

Na avaliação do executivo, reduzir ou eliminar tarifas, com previsto no tratado, é um passo muito importante, mas se “internacionalizar continua a exigir conhecimento dos mercados, cumprimento das regras de origem, requisitos técnicos e sanitários, certificações, logística, redes de distribuição e parceiros adequados”.

Paulo Rios assegura que o acordo entre a União e o Mercosul se revela particularmente promissor para as pequenas e médias empresas, que hoje estão fora do comércio internacional ou exportam aquém do potencia que têm. “Existe aqui uma oportunidade muito significativa. O fundamental é que [essas empresas] tenham informação, preparação e acompanhamento que lhes permitam aproveitar plenamente este novo contexto”, frisa.

Ele acredita que, neste ponto, a AICEP pode fazer a diferença, apoiando as empresas na identificação de oportunidades e parceiros e ajudando-as a abordar os mercados de forma mais informada e estruturada. “O sucesso do acordo dependerá, em grande medida, da capacidade de empresas dos dois lados do Atlântico para aproveitarem este novo enquadramento. Quanto mais empresas o utilizarem e quanto mais relações comerciais e empresariais forem criadas, maior será o seu impacto econômico e mais sólida será a relação entre a União Europeia e o Mercosul”, ressalta.

Setores beneficiados

Segundo o administrador da AICEP, todos os sinais que se têm dos primeiros quatro meses de vigência do acordo entre a UE e o Mercosul. “O acordo comercial provisório começou a ser aplicado no dia 1º de maio e trouxe, desde logo, melhores condições de acesso aos mercados, com reduções e eliminações tarifárias e um enquadramento mais previsível para empresas e investidores”, afirma. “Naturalmente, quatro meses são ainda um período curto para medir todo o impacto econômico do acordo, mas o que estamos observando é positivo”, acrescenta.

O executivo assinala que, para além da evolução do comércio, a AICEP tem identificado um interesse crescente das empresas portuguesas em conhecer melhor o acordo, entender as novas condições de acesso aos mercados e identificar oportunidades concretas de negócio. “Esse interesse é particularmente importante, porque demonstra que as empresas estão atentas e querem incorporar este novo enquadramento nas suas estratégias de internacionalização”, explica.

Para dar suporte às empresas e antecipar este movimento, a AICEP preparou o estudo Acordo de Parceria UE–Mercosul: Análise e Avaliação das Potenciais Oportunidades de Negócio para as Empresas Portuguesas, identificando setores de oportunidade, impactos esperados e desafios para as nossas empresas.

“Portugal tem vários setores muito bem posicionados para se beneficiar das novas condições de acesso ao mercado criadas pelo acordo. O estudo desenvolvido pela AICEP identificou oportunidades relevantes no ramo agroalimentar, nomeadamente no vinho, azeite, queijos e frutas, mas também em setores industriais, como máquinas e equipamentos, componentes para material de transporte, indústria farmacêutica, metalomecânica e materiais de construção”, lista.

E acrescenta: “Estamos falando de setores que, em Portugal, possuem empresas competitivas, capacidade exportadora, qualidade reconhecida e experiência internacional. Ou seja, não partimos do zero: temos uma base empresarial preparada para aproveitar esta abertura”. Para Rios é importante, contudo, distinguir duas realidades. “Já conseguimos identificar os produtos que passaram a se beneficiar de melhores condições de acesso; mas ainda é cedo para afirmar quais aumentaram as suas exportações diretamente por efeito do acordo”.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) apontam que, de janeiro a agosto deste ano, Portugal exportações 852,4 milhões de dólares para o Brasil, com aumento de 7,3% ante o mesmo período de 2025. Já o brasil vendeu, no mesmo período, 2,4 bilhões de dólares para Portugal, com decréscimo de 2,1%.

Condições favoráveis

O administrador da AICEP destaca que os benefícios do acordo entre a União Europeia e o Mercosul não ocorrem no mesmo ritmo em todos os produtos portugueses. “Em alguns casos, as reduções tarifárias começaram desde o primeiro dia; em outros, serão progressivamente implementadas ao longo dos próximos anos. Mas a direção é clara: a redução das barreiras reforça a competitividade das empresas portuguesas e cria novas possibilidades de crescimento nos mercados do Mercosul”, enfatiza.

Na visão dele, Portugal tem setores competitivos, produtos diferenciados e empresas com experiência internacional. “Isso cria uma base muito favorável para aprofundar a presença portuguesa no Mercosul e, em particular, para reforçar ainda mais as relações econômicas com o Brasil. Há, ainda, um fator que considero muito relevante: a excelente relação política e institucional entre Portugal e os países do Mercosul cria um contexto muito favorável ao aprofundamento das relações econômicas”, sublinha.

No caso especificamente do Brasil, detalha Rios, essa proximidade é reforçada também pela relação de cooperação entre a AICEP e a ApexBrasil, pois facilita o diálogo, a aproximação entre empresas e a identificação de oportunidades dos dois lados.

“Temos, portanto, condições muito favoráveis: um novo enquadramento comercial, empresas interessadas, relações institucionais sólidas e mercados com enorme potencial. O acordo abriu uma nova fase. Agora, importa transformar esse entusiasmo e essas melhores condições de acesso em mais negócios, mais exportações e mais investimento entre os dois blocos”, diz.

Dados encorajadores

Segundo o executivo, antes mesmo de o acordo entrar em vigor, os números disponíveis sobre as relações comerciais entre Portugal e o Mercosul já eram encorajadores e mostravam uma dinâmica exportadora positiva das empresas portuguesas. “Entre janeiro e maio de 2026, Portugal exportou cerca de 480 milhões de euros em bens para os países do Mercosul, o que representou crescimento de 11,4% face ao período homólogo. O Brasil, principal mercado português no bloco, representou quase 460 milhões de euros, registando um aumento de 12,5%”.

Na visão dele, trata-se de uma evolução relevante, indicando que Portugal chega a esta nova fase com uma base comercial sólida. “O acordo vem agora acrescentar um novo elemento de competitividade, que as empresas podem considerar nas suas decisões sobre mercados, produtos, preços e posicionamento comercial. Mas há um dado essencial: esta trajetória positiva das exportações portuguesas para o Mercosul é claramente liderada pelo Brasil, que continua a afirmar-se como o principal mercado de Portugal no bloco”, complementa.

Paulo Rios afirma, ainda, que as relações entre Portugal e o Brasil vivem um momento particularmente positivo, sustentadas em uma proximidade histórica e cultural muito forte, mas também numa clara vontade política e institucional de aprofundar a relação econômica entre os dois países. “Existe confiança, conhecimento mútuo e uma relação de amizade que cria condições muito favoráveis para aproximar ainda mais empresas, investidores e instituições dos dois lados do Atlântico”, diz.

Ele reforça que o Brasil é, de forma destacada, o principal mercado de Portugal no Mercosul e ocupa uma posição central na relação econômica portuguesa com o bloco. “Mas esta relação vai muito para além do comércio. Existe uma ligação empresarial consolidada, investimento nos dois sentidos e uma crescente diversidade de setores em que portugueses e brasileiros encontram oportunidades de cooperação”, frisa.

Parcerias e investimentos

Rios acredita que esse é um dos aspectos mais interessantes desta relação, e Portugal e Brasil têm muito para oferecer um ao outro. “Temos empresas, conhecimento, tecnologia, talento e capacidade de inovação em áreas distintas e, em muitos casos, complementares. Essa complementaridade pode gerar novas parcerias, investimento conjunto e oportunidades para as empresas dos dois países crescerem também em outros mercados”, assinala.

E mais: “Portugal pode igualmente funcionar como uma plataforma para empresas brasileiras que pretendam aprofundar a sua presença na Europa, da mesma forma que o Brasil representa para as empresas portuguesas um mercado de enorme dimensão e uma porta de entrada muito relevante para a América Latina”.

Para o administrador da AICEP, o acordo entre a UE e o Mercosul vem reforçar este contexto. “Não substitui a relação próxima que já existe entre Portugal e o Brasil; pelo contrário, dá-lhe novos instrumentos e cria condições adicionais para que essa proximidade se traduza em mais comércio, investimento e cooperação empresarial”, afirma.

Ele enfatiza: “Temos, agora, a oportunidade de dar ainda mais expressão econômica a esta relação, através de mais investimento, mais parcerias empresariais e maior criação de valor para Portugal e para o Brasil. Quanto mais forte for esta ligação econômica, maior será a capacidade dos dois países para gerar novas oportunidades e crescer em conjunto”.

Esta reportagem integra uma série de matérias do jornal Público, de sua editoria Público Brasil, publicado pela Rede BE News, a partir da parceria firmada entre os dois veículos. São reportagens destacando as novidades e os desafios dos imigrantes brasileiros em terras lusitanas ou, nas palavras da equipe do Público Brasil, “histórias e notícias para a comunidade brasileira que vive ou quer viver em Portugal”. A matéria original pode ser acessada por este link.

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