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“A democracia não depende de todo mundo chegar a um acordo

Atualizado em: 25 de September de 2026 às 11:48
Ivani Cardoso Enviar e-mail para o Autor

Vivemos tempos difíceis com tanta polarização política à nossa volta, e a divergência, infelizmente, coloca em questão o próprio vínculo. Para o psicanalista e autor de “Amar para não ser em vão” Lucas Lujan, é necessário questionar se conseguiremos atravessar as tensões políticas sem amor. Lucas revela nessa entrevista que essa dificuldade pode surgir quando só conseguimos manter próximo quem confirma nossas convicções. Refletir sobre os limites da convivência e reconhecer o outro como sujeito não significa aceitar posicionamentos que atentem contra direitos, dignidade humana ou princípios democráticos. Confira:

Vivemos tempos difíceis de ódio nesta época de eleições. Tem jeito?
O ódio só parece mais forte do que o amor porque é mais barulhento, dá mais ibope, cliques e likes. Então, ele é mais publicizado do que o amor. Ou, pelo menos, é no que prefiro confiar. E, portanto, sim, acho que tem jeito. O que não podemos imaginar, contudo, é uma sociedade sem conflitos. A democracia pressupõe divergência, porque pessoas diferentes desejam coisas diferentes para o mundo em que vivem.

Por que tanta polarização?
Temos visto a divergência política vir acompanhada de uma identificação muito forte com “os nossos” e de uma rejeição igualmente forte aos “outros”. É o que os estudos sobre polarização afetiva procuram compreender. Em determinados contextos, já não queremos apenas derrotar o adversário nas eleições; queremos expulsá-lo do espaço público, silenciá-lo e, às vezes, desejamos até mesmo o seu desaparecimento. Acredito que o amor oferece uma grande contribuição para pensarmos a política contemporânea, desde que não seja entendido como conciliação ou passividade.

Como conseguir o equilíbrio?
Amar não exige abrir mão do enfrentamento, mas reconhecer que há um outro diante de mim e que discordar dele não me dá automaticamente o direito de anulá-lo. Isso não significa aceitar o inaceitável vindo do outro, como racismo, misoginia, autoritarismo ou violência. Penso no amor como uma experiência em que precisamos reconhecer que existe diante de nós alguém que não é nossa extensão. Podemos enfrentar politicamente aquilo que consideramos intolerável sem transformar toda diferença em desejo de aniquilação. Essa é uma distinção importante para mim.

⁠Por que ainda é tão complicado aceitar o que pensa diferente?
Porque a diferença nos confronta com o fato de que o mundo não coincide completamente conosco e, nesse sentido, também nos confronta com um limite. É bastante confortável conviver com alguém que confirma nossas escolhas, nossos valores, nossas crenças e a maneira como interpretamos a realidade. A diferença mostra que aquilo que considero evidente pode não ser evidente para o outro. Quando alguém próximo pensa de maneira muito diferente, especialmente sobre temas que consideramos fundamentais, essa diferença pode ser vivida como uma ameaça.

Na política é mais intenso?
Sim, porque nossas posições não são apenas opiniões isoladas. Elas podem envolver identidade, pertencimento, história familiar, religião, classe, valores e expectativas de futuro. A literatura sobre polarização afetiva mostra que a identidade política pode funcionar como uma identidade social, tornando a discordância muito mais pessoal. Não somos completos e o outro também não poderá nos completar. Aceitar a alteridade significa admitir que o outro não existe para nos confirmar e isso nem sempre é fácil.
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Esse radicalismo amplia a solidão?
Pode ampliar, sobretudo quando exigimos das nossas relações um grau de concordância que nenhuma relação humana consegue sustentar. Se só posso amar, admirar ou manter perto de mim quem pensa como eu sobre tudo aquilo que considero importante, meu círculo vai ficando cada vez mais estreito. Isso não significa que todo rompimento seja resultado de intolerância. Há relações que se tornam impossíveis porque envolvem violência, humilhação ou posições que atingem diretamente a dignidade de alguém. Há uma diferença entre estabelecer esse limite e exigir que todos aqueles que amamos sejam uma confirmação permanente de nós mesmos.

Quais os componentes necessários para uma vida em sociedade?
Eu começaria pela capacidade de reconhecer a alteridade. Parece uma palavra difícil, mas significa algo relativamente simples: admitir que o outro existe para além daquilo que espero dele. Ele não precisa pensar como eu, gostar do que gosto ou interpretar o mundo da mesma maneira para ter igual dignidade. Isso exige alguma disposição para escutar, e escutar não é concordar. Posso ouvir alguém, entender o que está dizendo e continuar discordando profundamente.

A democracia incomoda?
Quando tentamos zerar qualquer conflito, acabamos desejando uma espécie de pacificação artificial — lembremos de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, em que o conflito é neutralizado pelo condicionamento, pelo controle e pela administração do prazer. Regimes autoritários também fazem isso ao restringir o pluralismo e reduzir o espaço legítimo da oposição. A democracia é mais incômoda porque exige conviver com conflito e dissenso.

⁠O que estamos passando para as crianças?
As crianças aprendem muito antes de conseguirem formular uma opinião política elaborada. Elas observam como os adultos falam dos outros, como discutem, como reagem quando são contrariados e o que acontece dentro de casa quando alguém pensa diferente. A família é um dos espaços mais importantes da socialização política, embora, evidentemente, não seja o único. Uma criança pode aprender que discordar significa humilhar, gritar e odiar, assim como pode aprender que é possível defender uma posição com firmeza, estabelecer limites e continuar reconhecendo a humanidade de quem está diante dela.

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