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Luiz Dias Guimarães

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Protozoários que não somos

O sentido da vida, para nós, humanos, é o sentido que lhe damos. A vida em si não é mais que o latente pulsar de uma forma viva, desde um protozoário. O desafio é não nos perdermos de vista, nessa construção que é permanente e deve nos  justificar.

Mas nem todo mundo lembra disso, sequer sabe por que e para que existe. Pudera, a vida em sociedade não nos ajuda a pensar. A sociedade, característica da espécie, determina o existir sem refletirmos tanto e nos impõe padrões de comportamento que passamos a vida a cumprir. Assim é, por exemplo, com a moda, essa besteira que nos ilude para  nos sentirmos inseridos e admirados na vida social.

Sempre foi assim, mas a Revolução Industrial foi devastadora na desconstrução do ser enquanto indivíduo. Para fazer a roda da economia girar, criamos a sociedade de consumo. Precisamos consumir cada vez mais e, para consumir, precisamos produzir. Tornamo-nos ironicamente a própria roda dentada dessa máquina sob o dogma de que, sem consumir, ela não gira e, para girar, temos que trabalhar tanto. 

Ultimamente tem sido citada a expressão do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que qualificou como ‘sociedade do cansaço’ o que fizemos com nosso mundo. Vivemos para nos cansar, cansamos para permanecer vivos num palco onde quem dele sai não vira sequer plateia, já que a máquina expele do meio social o que não for produtivo.

A ideia da sociedade do cansaço não se restringe a trabalharmos tanto. Inclui também o volume de informações que consumimos muito acima do que nosso estômago psicológico suporta. Inclui também o volume de estímulos e expectativas que essa sociedade de consumo nos incute. Até viajar, nosso sonho preferido de lazer, nos cansa. Vivenciar o novo nos consome psicologicamente, por mais irônico que pareça.

No início da Revolução Industrial, o ritmo era frenético, até que, num lampejo de esgotamento, os ingleses criaram a semana de cinco dias de trabalho para dois de descanso. Agora, passados cinquenta anos do bom-senso, há uma luz no caminho da infelicidade coletiva.

O movimento 4 Days Week se alastra globalmente. O Brasil começa este ano a experimentar trabalharmos apenas quatro dias por semana, sob o argumento de que podemos produzir tanto quanto, ou até mais, do que quando ficamos cinco dias enfiados numa escrivaninha.

Claro que é apenas um conceito e certamente virará regra com exceções.Mas é inevitável que venha a acontecer, como inevitável é hoje que parcela laboral atue remotamente, no chamado home-office. Muitos argumentos de economicidade do tempo, do transporte, da alimentação e da qualidade familiar contribuem para que persigamos cada vez mais o bem-estar cotidiano que, convenhamos, anda muito a desejar.

O mundo não é uma orquestra afinada. Ainda há muitos redutos onde o conceito de vida é escravocrata. Foi assim que a China, por exemplo, deu uma rasteira nos parques industriais do dito primeiro mundo.

Questionar a ‘sociedade do cansaço’ não é fazer apologia da ‘sociedade do ócio’. O sentido de existir implica fazermos algo – para nós e para os outros. Há um equilíbrio a se estabelecer para não chegarmos à nefasta conclusão de que o trabalho dignifica o homem, mas cansa.

A máquina continua a todo vapor. Agora, para sermos politicamente corretos, a toda energia renovável. Mas há um lampejo de lucidez. A inteligência artificial veio para aprimorar o fazer. Tudo que puder ser algoritmizável vai ocupando o lugar dos humanos. E isso, se nos poupa muito trabalho, também nos força a criar coisas novas. Afinal, que o Chat GPT  trabalhe por nós naquilo que o passado e o presente já lançaram no Google, mas de fato o que se está a criar para o futuro, algoritmo nenhum consegue prever. Ufa, imaginar ainda é nosso atributo.

Estas reflexões se expandem hoje ao mundo corporativo, já que vivemos  numa constelação de corporações onde as ruas, os bares, as academias e as escolas são meros satélites .

Fala-se muito em ESG, na verdade  a síntese recém-formulada de preocupações que podem, e devem com certeza, propugnar nos ambientes de trabalho, nesta que ainda é a sociedade de consumo. Gerir uma corporação, via láctea desse universo contemporâneo da quarta revolução, é, sem dúvida, construir o que alguns lúcidos já chamam de ‘felicidade corporativa’.

Pois é, erramos muito, mas sempre há alguma chance de corrigir, e buscando a felicidade coletiva, preservar individualmente o sentido de estar vivo aqui, humanóides que somos. E deixarmos de agir tal qual protozoários.

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