Frágil primavera na praia
Primeiro domingo ensolarado da primavera. Refestelo-me em uma cadeira debaixo do guarda-sol, de frente para o mar. Há muito tempo não o fazia. Especialmente com a companhia de minha filha, que logo trata de passar protetor solar. A juventude vaidosa de hoje toma cuidado. Eu não.
Sou do tempo em que passávamos bronzeador. Nesse trecho da praia de Santos, chamado Joinville, por conta de uma tradicional doceria em frente de mesmo nome, três irmãs enlouqueciam a mim e meus amigos com seus corpos amorenados. Até que o pai das meninas confidenciou a fórmula caseira, que continha caldo de cenoura e um produto de farmácia.
Preparávamo-nos para uma viagem de férias a Salvador e meus amigos não tinham dinheiro. Decidiram produzir o bronzeador em casa e vendê-lo em frascos às garotas da praia. Foi um sucesso, e então lá fomos nós curtir o Pelourinho. No retorno, quase fomos linchados diante de tantas branquelas de corpos manchados.
A praia de Joinville traz-me muitas lembranças, como Salvador também. Lá frequentava a praia de Placafor, que herdou esse nome porque em outros tempos havia em frente uma borracharia cujo dono pendurou no poste uma placa da Ford que virou referência também. As praias têm muito em comum.
Sentado na cadeira debaixo do sol, penso na ironia do tempo. Não sou mais jovem e minha filha Beatriz repete os gestos das meninas do meu tempo, esticada numa cadeira para receber o sol repleto de sonhos e esperanças.
À minha frente passa um shopping ambulante. Um carrinho sofregamente puxado pelo vendedor, com todas as comodidades para o deleite da estação. Boias, chapéus, saídas de praia, baldinhos, bichinhos infláveis e tudo mais que atraia os banhistas.
Atrás daquele suado vendedor, há uma revoada de pombas em busca de grãos de milho espalhados na areia. E mais adiante à minha vista uma revoada de velas disputando o melhor vento da tímida primavera. Tudo ao som das ondas daquela pródiga natureza.
Momento feliz em várias cenas e múltiplas dimensões. Cada um no seu quadrado. Como a vida, até que algo se imponha sobre as realidades individuais.
Mas nessa hora ninguém pensa numa ruptura coletiva da felicidade. A primavera chegou e todos nós nos sentimos abençoados. Até que surge uma brisa mais fria, o sol se esconde e minha filha se embrulha na toalha. O trovão anuncia mudança no tempo.
E todos nós corremos da praia, salpicados pela chuva, lavando-me das lembranças do bronzeador assassino, das meninas da Joinville, da Placafor, das pombas, dos veleiros e do pobre vendedor que, mais do que ninguém, se esforça para proteger sua realidade em forma de comodidades para felizes momentos de sol da primavera.