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Precisamos sim, falar sobre “Adolescência”

Atualizado em: 5 de April de 2025 às 22:55
Ivani Cardoso Enviar e-mail para o Autor

“A gente joga uma pedra no lago e não percebe as ondas que ela cria até chegar à margem”

Stephen Graham, ator e criador da série famosa, em entrevista para O Globo

Difícil fugir do assunto. A série “Adolescência” está na Netflix e ganhou o mundo em muitas pedras que chegaram aos oceanos de vários países. Está na boca do povo, nas matérias, entrevistas e análises de jornais, rádios, sites e tevês. Se ainda não assistiu vá atrás. Graham (que escreveu o roteiro ao lado de Jack Thorne) disse que “de vez em quando, você tem a sorte e o privilégio de fazer parte de algo que vai além da arte e ganha diferentes ressonâncias”. E ele fez algo grande: deixou pais, avós, familiares, jovens de todas as idades e os adolescentes perplexos e inseguros diante de uma realidade assustadora e secretamente embalada com emojis e temas desconhecidos para muitos até então. Difícil parar de ver os episódios, eles te arrastam em planos-sequência e vão mostrando o que pode ter levado um garoto lindo (e excelente ator) de 13 anos a matar uma garota da mesma idade a facadas. Quem conversou com a coluna sobre a série foi a psicóloga Marli Corrales Henriques, acostumada com questões de crianças e jovens em seu consultório, bem distantes do que assistiu. E que faz questão de dizer que, infelizmente, está mesmo acontecendo e perto de nós.

Psicóloga Marli Corrales Henriques. Foto: Arquivo pessoal.

Qual foi a sua reação ao assistir?

Assisti logo que entrou no streaming, a pedido dos meus filhos, também preocupados como todos nós. E foi bem difícil, trouxe várias questões e angústias, e olha que eu lido com essa faixa de idade. Pais dos meus pacientes, amigos, parentes trazem muitas dúvidas, o que mostra como a série está afetando as pessoas. Vários aspectos podem ser trazidos à reflexão: o perigo da negligência parental; o acesso livre às redes sociais; a falta de conexão entre adultos e jovens; a família; a escola; a sociedade; a masculinidade; a saúde mental; a supremacia das redes e muito mais.

A série traz respostas?

A série não nos dá respostas, mas levanta um turbilhão de perguntas e reflexões e é perturbadora, pois traz um assassinato adolescente. Um garoto de 13 anos mata uma colega de escola. Sabemos que também no Brasil e em outras partes do mundo já aconteceram crimes terríveis como esse. Ao assistir, é impossível não se identificar com o sofrimento dos pais que não entendem como aconteceu e onde erraram.

O que você destaca?

Em primeiro lugar, a série conversa conosco, com pais, professores, orientadores, educadores, fala com o mundo do adulto. Quando penso em negligência da família, não estou culpando esses pais, de forma alguma, pois as transformações que vivemos deflagra nosso despreparo. Temos a tendência de pensar que nossos jovens fechados dentro de seu quarto com seus computadores e smartphones, estão seguros, estão dentro de casa.  Que engano… 

E o mundo digital, tão presente entre eles?

As redes sociais, a internet e outras plataformas podem ser ambientes devastadores para o desenvolvimento de um jovem ainda em formação. Não tomar conhecimento do que seu filho está acessando nas redes, se valendo do respeito à privacidade de seu filho, é um erro. O adolescente não está pronto em muitos aspectos para esta exposição. Não está pronto biologicamente, seu córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisões, ainda não está formado, não é capaz de fazer escolhas, tomar decisões, é mais movido por impulsos. Psicologicamente, está vivendo um turbilhão de emoções que geram grande sofrimento, instabilidade de humor, pressão do grupo, da família, não sente que é compreendido, não sabe quem é e o que quer.  Socialmente precisa pertencer e se sentir aceito pelo grupo social. Através de logaritmos são levados para uma bolha de olhares que se assemelham.

Difícil apontar soluções, não?

Não devemos, nem podemos buscar culpados, mas compreender o momento social, familiar, educacional e cultural para juntos buscarmos formas de atuar. Todos estamos implicados nesses problemas, por isso o grande mal-estar e angústia de quem assiste à série. A Juíza Titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri, notou uma grande mudança no perfil dos menores infratores: adolescentes de classes média e alta que cometem infrações digitais graves. Ela observa que isto tem ocorrido à revelia dos pais, que não têm a menor ideia do que seus filhos fazem nos computadores e celulares.

Qual o alerta maior?

Fiquei pensando… Quando nossos filhos são pequenos, aprendemos as canções infantis, contamos histórias, brincamos com eles, enfim, tentamos nos aproximar do mundo infantil para ajudá-los a passar por esta fase tão rica e importante em seu desenvolvimento. Por que não nos aproximamos de nossos filhos adolescentes tentando conhecer sua linguagem, seus interesses, suas dificuldades, seus amigos? O que nos afasta desse mundo? Penso que o chamado “conflito de gerações” sempre existiu, no entanto, as dimensões atuais são infinitamente maiores e complexas. Palavras como: INCEL e REDPILL, não são trazidas apenas pelos criadores da série, mas estão aí, fazendo parte da linguagem de nossos adolescentes. Você pai, mãe, avô, avó conhece? Conhece os novos grupos de influenciadores que seus filhos acessam? As comunidades radicais que buscam? Penso que a série faz este alerta.

E o ambiente escolar?

Em segundo lugar, eu me proponho a pensar no ambiente escolar dessa série, nada mais disruptivo, caótico e confuso. Professores despreparados para lidar com os jovens, falta de coerência nas orientações, falta de compreensão, um verdadeiro caos. Como esse mundo adulto, a escola, pode educar os jovens com tantas dúvidas e emoções desconectadas? Eles saem da escola e continuam nela, através das redes sociais, onde, bullying, cyberbullying, cancelamentos, discursos de ódio são transmitidos livremente. A escola não consegue ter acesso e ainda não sabe como lidar com isso. As famílias também mostram grande despreparo e dificuldades. Esses jovens estão à deriva. E isso pode acontecer, e está acontecendo, em qualquer escola, até nas mais preparadas. Por isso há muito a refletir, temos que pensar mais, ir além.

Os adolescentes devem assistir?

Essa pergunta já me foi feita várias vezes e não há resposta certa. Cada família tem uma forma de enxergar a série e poder traçar um paralelo com o seu adolescente, saber se está mais ou menos maduro para entender. Se for para assistirem, os pais devem assistir junto para poder falar sobre as situações. Só se sentando junto, conversando e se abrindo para entender melhor os seus jovens.

 

 

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