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BE News revisita o que se projetava para o Porto de Santos
Desestatização arquivada, túnel imerso e novo terminal de contêineres no radar mostram mudanças no rumo traçado à época da primeira edição do jornal
A edição inaugural do BE News, publicada em fevereiro de 2022, trouxe um especial sobre o Porto de Santos, que completava 130 anos naquele mês. Assinada pela repórter Vanessa Pimentel — hoje editora-executiva do portal BE News — mergulhou na história e no futuro do maior porto da América Latina, com ênfase nos projetos que prometiam transformar sua infraestrutura e sua governança.
Naquele momento, o processo de desestatização do porto avançava com ritmo acelerado. O governo federal, por meio do BNDES, estruturava um modelo de concessão com previsão de leilão ainda em 2022. A proposta incluía investimentos de R$ 18,8 bilhões ao longo de 35 anos, destinados à dragagem, novos terminais e à modernização do sistema ferroviário. À frente da Santos Port Authority (SPA) — hoje Autoridade Portuária de Santos —, o então presidente Fernando Biral era um dos principais defensores da mudança, argumentando que a gestão privada teria maior agilidade na tomada de decisões e maior capacidade para atrair capital.
“Na época, apesar de existirem grupos a favor da desestatização da Autoridade Portuária, havia um certo receio de que a proposta tivesse tempo hábil para sair do papel, já que era o último ano do governo Bolsonaro – única gestão a favor da mudança – e os processos para uma alteração como essa são longos”, relembra Vanessa. “De fato, foi o que aconteceu. O projeto carecia de mais informações, principalmente em relação aos conflitos de interesse entre operadores portuários que atuavam no Porto de Santos. No fim, o mandato de Bolsonaro acabou e o projeto foi arquivado”, conclui.

O Governo estruturava para o Porto de Santos um modelo de concessão com previsão de leilão em 2022. A proposta incluía investimentos de R$ 18,8 bilhões ao longo de 35 anos. Foto: Divulgação/APS
Poligonal
O plano de expansão do porto também incluía o aumento da poligonal. A área seca operacional havia sido ampliada em quase 100%, passando de 8 km² para 15,5 km², abrindo espaço para novos empreendimentos industriais e logísticos. A proposta visava posicionar Santos de forma ainda mais competitiva no cenário internacional, atraindo investimentos e ampliando sua capacidade de escoamento.
Outro projeto de impacto era o aprofundamento do canal de navegação. O objetivo era atingir 16 metros de calado até 2026 e, posteriormente, 17 metros em 2033. Com isso, o porto passaria a receber navios de maior porte, ampliando o volume transportado por escala e reduzindo custos logísticos para exportadores e importadores.
Mas os desafios também foram ressaltados. Um dos principais gargalos apontados pela reportagem era o acesso ao porto. A infraestrutura ferroviária, especialmente a Ferrovia Interna do Porto de Santos (Fips), demandava investimentos estimados em R$ 992 milhões. No transporte rodoviário, o governo do Estado de São Paulo estudava alternativas para melhorar a ligação entre o Planalto e a margem esquerda, como a chamada Linha Verde, uma nova rodovia que poderia aliviar o tráfego e facilitar o fluxo de caminhões.
Apesar dos recordes — em 2021, o Porto de Santos registrou a maior movimentação de sua história, com 147 milhões de toneladas —, havia preocupação com a competitividade. Especialistas como Ricardo Molitzas, diretor-executivo do Sindicato dos Operadores Portuários do Estado de São Paulo (Sopesp), apontavam a necessidade de intervenções nos acessos terrestres e aquaviários para garantir fluidez e eficiência, especialmente diante do crescimento contínuo da demanda.
A edição também trouxe um olhar sobre a relação entre o porto e a cidade. Mauro Sammarco, presidente da Associação Comercial de Santos, foi um dos entrevistados que defenderam o fortalecimento dos laços entre as atividades portuárias e a população local, num esforço para integrar desenvolvimento econômico e qualidade de vida urbana.
No encerramento do especial, o BE News projetava o futuro do porto, com destaque para o plano de instalação de um novo terminal de contêineres na região do Cais do Saboó.

Três anos depois
De lá para cá, parte daquele futuro começou a se concretizar. A desestatização foi arquivada no início do governo federal seguinte, mas outros projetos ganharam corpo. Os governos federal e estadual se uniram em prol do túnel imerso entre Santos e Guarujá, orçado em R$ 6 bilhões. A Fips teve o contrato de concessão assinado com o consórcio vencedor, responsável por operar e expandir a malha ferroviária interna, com a promessa de reduzir a dependência do modal rodoviário. E o novo terminal de contêineres no Cais do Saboó, que já se chamou STS10, agora é denominado Tecon Santos 10. O projeto está na fase de audiências públicas e o leilão de arrendamento é estimado para o final deste ano, com previsão de investimento superior a R$ 2,6 bilhões.