Sul Export
A última travessia de um diplomata
Embaixador do Uruguai no Brasil, Guillermo Valles anunciou o fim da carreira no estado que abriga a Lagoa Mirim, onde despertou seu ideal diplomático
Há momentos em que o tempo parece fazer um círculo perfeito. Como se o início e o fim de uma história se tocassem com a delicadeza de quem compreende que há ciclos que se encerram não por esgotamento, mas por plenitude. Foi assim que Guillermo Eduardo Valles Galmés anunciou sua despedida da diplomacia: com a voz embargada, apontando para um velho panfleto de 1970, projetado num telão ao final de um painel do fórum Sul Export, realizado nos dias 28 e 29 de abril, em Porto Alegre (RS). Diante de autoridades, empresários e velhos amigos reunidos no auditório da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), o embaixador do Uruguai no Brasil revelou que encerraria sua carreira de meio século. Justamente no estado que abriga a Lagoa Mirim.
Berço simbólico de sua jornada diplomática, essa rota binacional entre os dois países hoje ressurge como projeto de futuro. A concessão da Hidrovia Lagoa Mirim-Lagoa dos Patos tem Valles como um dos defensores mais entusiastas, enxergando nela não apenas um corredor logístico, mas a realização concreta de um ideal de integração que atravessou toda a sua trajetória.
“Esta é a última fala do embaixador do Uruguai no Brasil. Estou finalizando o meu posto aqui. Estou finalizando também minha carreira. A carreira começou aqui”, disse, comovido. O documento exibido trazia os planos de desenvolvimento da bacia da Lagoa Mirim, que ele conheceu aos 14 anos, levado por seu pai à sede da Comissão Mista da Lagoa Mirim, instalada à época no lado uruguaio. “Imaginem o que significou para um jovem que começava sua carreira… e que finaliza a sua carreira aqui hoje.”
Guillermo Valles Galmés construiu uma vida inteira a serviço da diplomacia. Formado em Direito e doutor em Diplomacia pela Universidad de la República, no Uruguai, atuou em países como Japão, Argentina, China, Bélgica e Luxemburgo. E também como representante permanente junto à Organização Mundial do Comércio, em Genebra, na Suíça. Em organismos multilaterais, foi diretor da Divisão de Comércio Internacional da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), contribuindo com propostas voltadas ao desenvolvimento sustentável e à cooperação entre nações.
Em 2020, assumiu o posto de embaixador em Brasília (DF). Essa não foi apenas mais uma designação. Tornou-se, para ele, uma etapa de reconexão profunda com as origens de seu ideal diplomático: a integração sul-americana baseada em diálogo, comércio e infraestrutura conjunta. Durante seu período à frente da embaixada, Valles foi uma das vozes mais atuantes na articulação binacional da Hidrovia Lagoa Mirim–Lagoa dos Patos, projeto que simboliza não apenas uma nova rota logística, mas um elo concreto entre Brasil e Uruguai.

Brasil Export
Esse compromisso com a integração também o aproximou do Grupo Brasil Export, com quem construiu laços firmes e fraternos. Foi um dos principais articuladores das duas edições do Mercosul Export, em Montevidéu, em 2023 e 2024.
Pelo seu esforço incansável na promoção do diálogo e da cooperação, recebeu o título de presidente honorário do Conselho do Mercosul Export. A homenagem foi entregue durante a abertura da edição de 2024. “Uma luta pela construção do Mercosul e dessa relação bilateral entre os países”, nas palavras de Fabrício Julião, CEO do grupo.
A presença de Guillermo Valles no Sul Export teve gosto de despedida, mas também de celebração. Ao lado de aliados de longa data, como José Roberto Campos, presidente do Conselho Nacional do Brasil Export, o embaixador reforçou seu apoio aos projetos de desenvolvimento logístico entre Brasil e Uruguai. E se despediu com um apelo emocionado: “Façam esse sonho realidade”, disse apontando para o telão que ainda exibia o antigo panfleto, referindo-se à concessão da hidrovia. “Não é um sonho meu. É o sonho de muita gente por muitos anos. Já é tempo de fazê-lo”.
A voz que se cala agora nos corredores diplomáticos continuará ecoando nos eventos do Brasil Export. Guillermo Valles deixa a diplomacia como viveu: acreditando no poder da cooperação. E com a elegância serena de quem sabe que certos sonhos, como os das águas que ligam países, não pertencem a um só homem, mas a todos que ousam enxergar pontes onde outros veem fronteiras.
Um marco na integração Brasil-Uruguai
O panfleto exibido por Guillermo Valles durante seu depoimento no Sul Export é intitulado El Plan de Desarrollo de la Cuenca de la Laguna Merín (O Plano de Desenvolvimento da Bacia da Lagoa Mirim, em português). Lançado em 1970, foi fruto de um projeto binacional entre Uruguai e Brasil, com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Iniciado em 1963 com a criação da Comissão Mista Uruguai-Brasil, o plano visava estudar e promover o aproveitamento integral da região da Lagoa Mirim.

O objetivo era reunir dados físicos, econômicos e sociais da bacia, abordando volume de água, relevo, tipos de solo, práticas agrícolas, além de desafios como inundações e salinização. O plano também buscava soluções para a recuperação de terras improdutivas, melhorias no sistema de drenagem, regularização da navegação e conexão com o Oceano Atlântico.
Entre as iniciativas decorrentes, destacou-se a criação da Estação Experimental do Leste, vinculada ao Instituto Nacional de Investigação Agropecuária (INIA), no Uruguai, voltada ao desenvolvimento de cultivos adaptados à região.
Em 1977, os esforços levaram à assinatura do Tratado da Bacia da Lagoa Mirim, que formalizou a cooperação bilateral para o desenvolvimento sustentável da região. A Comissão Mista continuou ativa, com projetos como a construção da eclusa do Canal de São Gonçalo, para conter a água salgada e garantir a qualidade da lagoa para consumo e agricultura.
O plano é considerado um marco na integração regional e no uso sustentável de recursos naturais compartilhados, lançando as bases para futuras colaborações na bacia da Lagoa Mirim.