Região Sul
Sul e MS se unem para discutir concessões e propor criação da Ferrosul
Comissão técnica interestadual vai atuar em bloco pela renovação de contratos e por uma malha ferroviária integrada
Os governos do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul decidiram atuar de forma coordenada para propor melhorias no sistema ferroviário da região, com foco na renovação das concessões existentes e na criação da Ferrosul, uma malha integrada entre os quatro estados. O compromisso foi firmado nesta terça-feira (8), durante encontro técnico realizado em Florianópolis (SC), que reuniu os governadores Eduardo Leite (PSDB-RS) e Jorginho Mello (PL-SC), além de representantes dos governos do Paraná e de Mato Grosso do Sul.
Como primeiro encaminhamento, os estados decidiram formalizar uma comissão técnica conjunta para participar do debate nacional sobre a renovação das concessões ferroviárias, em especial a da Malha Sul, operada pela Rumo Logística e cujo contrato atual vence em 2027. A comissão também será responsável por articular a proposta de criação da Ferrosul, com o objetivo de fortalecer a logística ferroviária regional e ampliar a integração entre os estados.
“Foi decidido que nós vamos criar uma comissão técnica agora, formada pelos quatro estados, de forma legalizada. Baseada em uma carta, dizendo a intenção dos quatro governadores em trabalhar esse assunto de forma conjunta. Só assim nós entendemos que vamos de uma vez por todas fazer o assunto andar. Entendemos que isso é vital para a nossa economia. Por isso tomamos essa iniciativa”, afirmou o governador Jorginho Mello, anfitrião da reunião.

Os governadores de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de representantes dos governos catarinense, do Paraná e de Mato Grosso do Sul participaram do encontro técnico. Foto: Rodrigo Félix Leal/SEIL-PR
Santa Catarina será representada no grupo pelos secretários estaduais Beto Martins (Portos, Aeroportos e Ferrovias), Ivan Amaral (adjunto da mesma pasta) e Ricardo Grando (adjunto da Infraestrutura e Mobilidade). “A união desses quatro estados vai mudar totalmente a nossa capacidade de negociação. Agora todos vão saber que nós temos quatro estados muito importantes para o país, com grande capacidade de desenvolvimento econômico e que vão estar unidos para discutir a malha ferroviária. A verdade é que os nossos estados não têm recebido há décadas a atenção que merecem no que diz respeito à eficiência logística”, afirmou Beto Martins.
No Rio Grande do Sul, a principal preocupação é a redução drástica da malha operacional. Dos 3.823 quilômetros originalmente concedidos à Rumo, apenas 921 permanecem em uso, agravados pelos danos provocados pelas enchentes de 2024. Segundo o governo gaúcho, a empresa manifestou interesse em devolver parte dos trechos à União, mantendo apenas o segmento entre Rio Grande e Cruz Alta, considerado mais rentável. Para o governador Eduardo Leite, o protagonismo da região é essencial no processo.
“A malha ferroviária gaúcha perdeu metade da sua movimentação nos últimos anos e está operando com baixa velocidade, alto custo e pouca integração. Não aceitaremos que essa concessão seja prorrogada sem compromissos concretos de investimento e planejamento. Os recursos da devolução precisam ser aplicados aqui, onde o prejuízo é real e onde há potencial de crescimento”, defendeu Leite.
No Paraná, o transporte ferroviário é considerado estratégico, especialmente para o escoamento da produção agrícola via Porto de Paranaguá, que movimenta cerca de 70 milhões de toneladas por ano — 15 milhões por ferrovias, segundo o governo estadual. O Estado já investe na ampliação dessa capacidade, com destaque para o Moegão, projeto de mais de R$ 590 milhões em andamento, e a desestatização da Ferroeste.
“Vamos trabalhar em conjunto. O governador Ratinho Junior (PSD) se reuniu há poucos dias com o ministro dos Transportes, Renan Filho, que também está querendo discutir essa questão. Então há um entendimento de todas as partes para trabalhar pela melhor solução”, afirmou o secretário de Infraestrutura e Logística do Paraná, Sandro Alex. Ele também defendeu a inclusão da Ferroeste — com 248 quilômetros entre Cascavel e Guarapuava — na modelagem da nova concessão.
“Nós estamos querendo uma solução. O Paraná tem a quarta maior economia do Brasil e vai defender novos investimentos junto ao governo federal”, acrescentou o secretário.
Rotas de exportação
Mato Grosso do Sul, que possui papel crescente no escoamento da produção agropecuária do Centro-Oeste, também integra o esforço interestadual. Representado pelo secretário Jaime Elias Verruck (Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), o estado vê na integração ferroviária uma oportunidade para consolidar novas rotas de exportação.
Entre os próximos passos está a indicação dos representantes estaduais para compor a comissão técnica e a definição de um plano conjunto de atuação. A expectativa é estabelecer uma mesa de diálogo com o governo federal para discutir a modelagem da nova concessão, a criação de um fundo específico para aplicação dos recursos da devolução e a inclusão dos impactos das enchentes no diagnóstico oficial da infraestrutura. Os quatro estados também pretendem propor a retomada de conexões interestaduais desativadas e a modernização dos trechos ainda em operação.