Mercosul Export
Mercosul trava avanços logísticos por falta de coordenação entre países
Especialistas apontam a ausência de planejamento integrado como entraves para o transporte de cargas no bloco
“O Mercosul foi criado há mais de 30 anos para ser uma zona de livre comércio. Mas até hoje estamos discutindo como fazer integração.” A fala de Ricardo Molitzas, vice-presidente do Instituto Brasil Logística (IBL), sintetiza a insatisfação compartilhada por especialistas e representantes do setor produtivo com a lentidão dos avanços logísticos no bloco.
O alerta foi feito durante o painel “Ações para ganho de eficiência para o transporte de cargas no Mercosul”. O debate foi moderado por Leopoldo Figueiredo, diretor-geral da Rede BE News, e reuniu representantes do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina.
Entre os principais gargalos citados está a fragmentação dos investimentos. Projetos como a hidrovia Paraguai-Paraná seguem sem coordenação entre os países, o que compromete sua operação plena. “Não adianta o Brasil fazer a sua parte se os outros trechos não forem implementados”, completou Molitzas.
Guillermo Valles, ex-embaixador do Uruguai no Brasil, defendeu que as decisões logísticas precisam considerar fatores como mudanças climáticas, transformação tecnológica e envelhecimento populacional. “Planejar hidrovias e portos sem considerar o clima, a revolução tecnológica e o envelhecimento populacional é ignorar o pano de fundo em que estamos inseridos”, disse. Para ele, a hidrovia Brasil–Uruguai tem potencial para conectar áreas economicamente deprimidas à economia global. “Ela é essencial para estruturar o território de forma racional, com base na inclusão.”
Hugo Pastore, diretor executivo da Câmara Paraguaia de Exportação e Comercialização de Cereais e Oleaginosas, destacou que a navegação no trecho argentino da hidrovia ainda enfrenta entraves e falta de previsibilidade.
Pastore também chamou atenção para exigências ambientais do mercado europeu, como a segregação física de produtos agrícolas. “Isso vai trazer um desafio logístico enorme, porque às vezes a origem é múltipla, ou se usa a mesma infraestrutura. É um desafio que vamos ter que resolver juntos.”
Fabio Ciocca, presidente da Câmara Empresarial Argentino-Brasileira do Rio Grande do Sul, criticou a falta de continuidade entre governos em relação a projetos de integração. “Não adianta cada gestão começar do zero. Precisamos de uma visão geoeconômica que entenda nossas fronteiras e hidrovias como ativos estratégicos.”
Molitzas complementou e disse que os países atuam como se estivessem cada um em uma pista diferente. “É preciso parar de perder tempo e começar a andar juntos”, concluiu.