Uma nova etapa da infraestrutura brasileira
O leilão do túnel Santos-Guarujá, concluído na sexta-feira (5), representa um marco histórico para a infraestrutura brasileira. Pela primeira vez o país terá um túnel imerso, ligando Santos e Guarujá por debaixo do canal do maior porto da América Latina. A escolha do consórcio liderado pela portuguesa Mota-Engil, com participação da chinesa CCCC, confirma a capacidade de articulação e de atração de investimentos internacionais, além de consolidar a visão de longo prazo necessária para tirar do papel um projeto que estava em estudos há mais de 100 anos.
Mais do que uma obra de mobilidade urbana, o túnel simboliza uma agenda de desenvolvimento econômico, capaz de gerar cerca de 5 mil empregos diretos e transformar o deslocamento diário de 1,2 milhão de pessoas na região. O trajeto, que hoje leva entre 45 minutos e 1 hora e 15 minutos em balsas ou por rodovias estaduais, será reduzido para apenas três a cinco minutos, reforçando a logística portuária e estimulando o turismo e os negócios. Como destacou o presidente da Autoridade Portuária de Santos, Anderson Pomini, “o porto fez o seu papel. Articulou a comunidade local, criou uma comissão formada por mais de 80 pessoas. Nós debatemos em conjunto o melhor traçado, a menor intervenção, quais serão as vantagens e as desvantagens para essa obra para todo o complexo portuário e toda a Baixada Santista”.
O leilão também evidencia a importância da cooperação entre os entes federativos. A construção do túnel será financiada em conjunto pela União e pelo estado de São Paulo, por meio de um Acordo de Cooperação Técnica, com aporte público de R$ 5,14 bilhões. A integração administrativa e política foi reforçada pelo ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, que lembrou a relevância de um empreendimento estruturante não apenas para a mobilidade, mas para a economia e para a confiança do setor privado no Brasil. Para as próprias autoridades presentes, o evento demonstrou que é possível destravar projetos complexos com diálogo e articulação.
Ao mesmo tempo, o leilão expõe os desafios que a execução do túnel terá pela frente. A complexidade técnica, que, segundo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, limitou o número de concorrentes habilitados, exige gestão eficiente, fiscalização rigorosa e controle de custos. Além disso, a obra precisa conciliar avanços na infraestrutura com a proteção social das comunidades afetadas. Em Santos, moradores protestaram contra possíveis desapropriações, mas o governo estadual e a APS afirmam que já vêm implementando soluções de moradia digna para as famílias impactadas, com garantia de condições iguais ou melhores às atuais.
O sucesso do leilão marca, portanto, um momento de expectativa e responsabilidade. Ele combina uma obra de engenharia inovadora, integração entre governos e atenção à população local. O desafio que se apresenta a partir de agora é transformar este marco histórico em resultados concretos: iniciar as obras até o final do ano, cumprir os prazos e metas de qualidade, e garantir que a infraestrutura beneficie efetivamente a mobilidade, a economia e a sociedade da Baixada Santista.
O túnel Santos-Guarujá simboliza não apenas uma conquista de engenharia, mas um teste de capacidade do país de executar projetos complexos de forma coordenada, transparente e socialmente responsável.