Funeral da verdade
“O melhor ditado para os tempos atuais é ‘os olhos só veem o que o coração sente’. Não mais importa o que vemos. A realidade virtual confunde, ilude, mente e dissemina o que o autor quer. E o sentimento, inflamado por falsas verdades, retroalimenta e orienta a visão para que só enxerguemos o que nos foi programado.”
O defunto pediu perdão. Não duvide. Pois não é que a família de um morto nos Estados Unidos usou a IA para, durante o julgamento do assassino, projetar o extinto perdoando o réu? Até o juiz se emocionou. A que ponto chegamos! Imagine a surpresa dos jurados e o quanto esse inusitado fato pode ter influenciado na sentença.
Curioso é saber que os olhos agora podem sim serem assombrosamente enganados. Um cadáver pode falar o que talvez nem pensasse ou sentisse o extinto caso ainda estivesse vivo. E aí reside o perigo da falsa verdade.
Sempre acreditamos apenas no que víamos, a ponto de consagrarmos o ditado “o que os olhos não veem o coração não sente”. Já não sei mais se acredito no que vejo.
O melhor ditado para os tempos atuais é “os olhos só veem o que o coração sente”. Não mais importa o que vemos. A realidade virtual confunde, ilude, mente e dissemina o que o autor quer. E o sentimento, inflamado por falsas verdades, retroalimenta e orienta a visão para que só enxerguemos o que nos foi programado.
Haveria de se criar um filtro verificador da autenticidade do que se vê. E se desmascarada a mensagem, nos livrar da contaminação do virus que aos poucos nos destrói. Tudo começa pelo que vemos e ouvimos, passa pelo cérebro e se instala no coração. Daí o virus vai produzindo uma enzima chamada ódio, que inflama a alma de cada um.
Sei que a verdade nem sempre é absoluta e depende da razão. Sei também que esta não reina sozinha no império do ser. Sei que o sentimento, desde que saudável, pode ser caminho da intuição, e que os valores éticos e morais da consciência hão sempre de prevalecer.
Mas somos seres imperfeitos, às vezes dissimulados bastiões da verdade como nos convém. O que está à vista, porém, é de se considerar, desde que não se tomem o espectro de alguém criando um avatar de alguém e lhe dando a voz como Úrsula roubou a voz de Ariel na Pequena Sereia.
Melhor seria, num caso como o do julgamento invadido pela nova Inteligência, que o tribunal se transformasse em uma Mesa Branca, com os assentos dispostos para um mundo que não vemos mas que talvez sejam a amplitude da vida.
Fico imaginando que logo surgirá um app que, por módico custo mensal, poderá nos conectar com os espíritos. Explico: talvez você não acredite na Psicografia, mas eu tendo a crer na capacidade de nos comunicarmos com quem, em corpo e alma, já não esteja às nossas vistas.
E aí será uma grande revolução. Ao invés de um morto ditar uma carta através de um médium, desde que acionado o aplicativo capaz de reproduzir a imagem do defunto, este passaria a, de viva voz, proferir sua mensagem ao vivo e a cores.
Então, o que os olhos veriam seria capaz de não só emocionar um juiz, mas de nos ligar definitivamente com um universo que nossos olhos ainda não veem, derretendo os corações e mostrando que, de repente, começarão a surgir as verdades verdadeiras. Será, pois, o grande mérito de uma inovação surgida neste novo milênio que pôs em cheque a própria vida.