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Salve comandante Hildelene!

6 de December de 2025 às 9:52
Ivani Cardoso Enviar e-mail para o Autor

A primeira mulher a comandar um navio na Marinha Mercante brasileira tinha medo do mar, e com toda razão. Aos 11 anos, Hildelene Lobato Bahia estava com a mãe e a tia passeando de canoa em um igarapé, em Belém do Pará, e a embarcação virou. “Só não morri porque minha tia me puxou pelos cabelos, mas fiquei apavorada”, conta.

Muitos anos depois, quando incentivada pelo irmão a prestar concurso para a Marinha Mercante, veio a preocupação com a prova física: não sabia nadar, a última fase depois das três primeiras teóricas em que foi aprovada. Problema? Não, desafio, apenas mais um para essa mulher aguerrida que sempre batalhou muito pelos sonhos.

Foi procurar um professor de natação conhecido e disse que precisava aprender a nadar em 15 dias. Conseguiu! Ela se formou no Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar (CIABA) em 1997 e foi promovida a comandante em 2009, comandando o Navio Tanque “Carangola”, construído em um estaleiro no Rio de Janeiro.

Hildelene está como gerente setorial no Centro de Monitoramento de Navios da Transpetro, no Rio de Janeiro. Embora apaixonada pelo comando de navios e depois de chegar ao topo da carreira, resolveu mudar a rota e ficar em terra, pensando também em realizar depois o desejo de ser mãe. Ana Luiza, com dois anos, foi o melhor presente dessa mudança de rumo.

Ela acredita que Deus está sempre na frente e vai decidindo nossos destinos. O pai queria que ela fizesse Direito, mas a dedicação de um professor de Matemática foi decisiva para a escolha de Ciências Contábeis. Entrou com 17 anos na Universidade Federal do Paraná, e quando ouviu seu nome pela rádio, que era comum na época, sentiu muita emoção.

Lembra, ainda, que certa vez estava em uma parada de ônibus, e um homem desconhecido, que nunca mais encontrou, se aproximou e disse que levava uma mensagem para ela. “Ele falou que eu teria uma vida muito próspera, que eu chegaria ao topo da carreira e conheceria o mundo”.

A profecia se cumpriu talvez pelo acaso, com o convite do irmão que até pagou sua inscrição no concurso da Marinha. Ela estava estudando para prestar concurso para o quadro técnico do Tribunal Regional do Trabalho. Por ironia, o irmão não passou nem na primeira fase. A prova física revelou seu potencial para o esporte, foi até da equipe de atletismo.

Aos 22 anos entrou para a EFOMM e encontrou um ambiente muito masculino, as 12 mulheres (só 9 se formaram) moravam em uma área no prédio do comando da escola, não havia alojamento especial para as mulheres. Estava terminando o curso de Ciências Contábeis e não queria abandonar a faculdade. O regime de semi-internato era rígido, mas quem resiste ao sorriso franco de Hildelene? 

Conseguiu liberação do tenente para um dia por semana concluir a monografia. “Meu orientador, Alcides Maues, tinha um irmão na Marinha e foi um Anjo da Guarda na minha vida, afirmou que ia me ajudar e que eu não poderia desistir. Só não tirei dez por conta da frequência”, revela.

Embarcada, escolheu o setor de náutica e no segundo ano, em 1998, como estagiária ficou em um petroleiro. Em 2009, a emoção de comandar o primeiro navio, o Carangola. “Você galga posições por tempo no mar. Em dez anos cheguei à capitão de cabotagem. Foram 16 ótimos anos embarcada, mas gosto do que faço atualmente, minha navegação é on-line, mas vou aos navios para fiscalização, dou palestras e faço apresentações para alunos da escola.”

Em todos esses anos, claro que sofreu preconceito e desconfianças. Para começar, quem faz o processo seletivo da escola e durante o curso não pode engravidar, uma realidade que muitos desconhecem. Muitos homens, por incrível que pareça, ainda acham que mulher a bordo dá azar e têm atitudes machistas. “Principalmente quando eu era imediata, testavam muito meus conhecimentos. Certa vez, um cozinheiro ficou indignado quando viu meu contracheque, achava um absurdo pela minha idade eu ganhar bem mais do que ele.”

Como comandante viajou para a Venezuela, Argentina, Caribe, Emirados Árabes, Chile, Singapura. Enfrentou tempestades, o medo de piratas na África e outros desafios, mas garante que tudo valeu a pena. Não se arrepende da decisão de deixar o mar, mesmo no auge da carreira. “Tive a sorte de comandar um navio novo e de ponta, o Rômulo Almeida, do Estaleiro Mauá, participei de todas as fases da construção, escolha da tripulação, testes de navegação, foi como uma gestação. Mas percebi que faltava algo na minha vida, eu precisava ser mãe. Até tentei engravidar, mas quando não deu adotei minha filha do coração.” 

E para as mulheres que desejam ser comandantes, ela alerta: “É maravilhoso, mas ao mesmo tempo é uma posição muito solitária. A responsabilidade é grande com a vida das pessoas, com o patrimônio, as decisões finais são suas”. O mais engraçado de tudo é que essa mulher poderosa confessa: “Prefiro navegar do que andar de avião, vou, mas não me acostumo”.

 

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