Mineração
Chile cria nova empresa para ampliar produção de lítio no Salar do Atacama
Codelco e SQM unem operações em acordo aprovado por reguladores internacionais e alinhado à Estratégia Nacional do Lítio
A estatal chilena Codelco, maior produtora mundial de cobre, e a mineradora privada SQM anunciaram a criação de uma nova empresa para atuar na exploração de lítio no Chile, em uma parceria público-privada voltada à ampliação da produção do metal no Deserto do Atacama. Batizada de Nova Andina Lítio SpA, a companhia será responsável pelas atividades de exploração, extração, produção e comercialização de lítio no Salar do Atacama até o ano de 2060, segundo informações divulgadas pelas empresas.
O acordo envolve dois dos principais atores do setor mineral chileno e está inserido em um contexto de reorganização da política nacional para o lítio, metal considerado estratégico para a transição energética global. O Chile detém a maior reserva conhecida de lítio do mundo e é atualmente o segundo maior produtor global, atrás apenas da Austrália. O material é amplamente utilizado na fabricação de baterias para veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
De acordo com comunicado da Codelco, a Nova Andina Lítio SpA passará a concentrar o controle de toda a cadeia produtiva do lítio no Salar do Atacama, garantindo a continuidade dos contratos atualmente em vigor com a Corporação de Fomento da Produção (Corfo), agência estatal de desenvolvimento, bem como dos novos acordos que passarão a valer a partir de 2031. Como parte da operação, a SQM transferiu à Codelco todas as suas concessões de mineração localizadas no Salar de Maricunga.
A criação da nova empresa ocorre em um momento de preços deprimidos no mercado internacional de lítio, que enfrenta um ciclo de baixa há cerca de dois anos. Ainda assim, a Codelco avalia que a iniciativa terá impacto positivo sobre seus resultados financeiros, ao permitir ganhos de escala, maior coordenação produtiva e ampliação da participação estatal em um ativo considerado estratégico.
A parceria também prevê um aumento relevante da produção. A expectativa informada pelas empresas é de que a nova companhia alcance uma produção adicional de aproximadamente 300 mil toneladas por ano no Salar do Atacama. Para efeito de comparação, a produção chilena de lítio em 2022 somou 243,1 mil toneladas, segundo dados oficiais.
“Esta joint venture permite projetar o desenvolvimento do Salar de Atacama em benefício dos mercados globais”, afirmou Ricardo Ramos, gerente-geral da SQM, em declaração divulgada no anúncio da operação. A mineradora é uma das principais produtoras de lítio do mundo e possui participação de capital chinês em sua estrutura societária.
A constituição da Nova Andina Lítio SpA integra a Estratégia Nacional do Lítio, lançada pelo governo do presidente Gabriel Boric em 2023. A política tem como um de seus eixos o aumento do controle estatal sobre os recursos de lítio, ao mesmo tempo em que busca ampliar a produção e recuperar a liderança mundial do Chile no setor, perdida em 2016. Boric, que se aproxima do fim de seu mandato, tem tratado a agenda do lítio como uma das prioridades de sua gestão.
Participação do Estado
Segundo a Codelco, o modelo de parceria assegura uma participação majoritária do Estado chileno nos resultados econômicos da atividade. Entre 2025 e 2030, cerca de 70% da margem operacional gerada pela nova produção deverá ser destinada ao Estado. A partir de 2031, esse percentual sobe para 85%. Em 2024, o lítio respondeu por aproximadamente 3% das exportações totais do Chile.
A operação foi submetida à análise de órgãos reguladores no Chile e no exterior. Conforme informado pelas empresas, o acordo recebeu aval de mais de 20 autoridades regulatórias nacionais e internacionais, incluindo instâncias da China, do Brasil, da Arábia Saudita e da União Europeia. O último grande obstáculo regulatório foi superado em novembro, quando o governo chinês concedeu sua aprovação, condicionada ao cumprimento dos compromissos comerciais já existentes e à manutenção do fornecimento aos clientes chineses em condições consideradas “justas, razoáveis e não discriminatórias”.
A Codelco classificou a constituição da Nova Andina Lítio SpA como uma das operações mais relevantes da história empresarial chilena, tanto pelo volume de produção envolvido quanto pelo redesenho do papel do Estado na exploração de um recurso estratégico para a economia e para a matriz energética global.