Comércio exterior
Indústria brasileira projeta impactos do acordo Mercosul-UE
Entidades industriais destacam peso econômico do tratado, efeitos tarifários e a necessidade de ajustes internos para aproveitar a abertura comercial entre os blocos
A aprovação provisória do Acordo Mercosul-União Europeia pelo Conselho da União Europeia, nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, foi recebida de forma positiva pelas principais entidades industriais do país. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) destacaram o alcance econômico do tratado e os desafios que se abrem para a indústria brasileira a partir da próxima etapa do processo.
Em nota, a Firjan classificou como “estratégica” a autorização europeia para a assinatura do acordo, ressaltando que o entendimento é fechado em um contexto internacional marcado por tensões geopolíticas e pela adoção de novas barreiras comerciais. Para a federação, o tratado pode contribuir para ampliar a competitividade do Brasil no comércio global.
Segundo a entidade, Mercosul e União Europeia somam cerca de US$ 22 trilhões, o equivalente a aproximadamente um quinto da economia mundial. Em 2024, o comércio bilateral entre o Brasil e o bloco europeu alcançou US$ 95 bilhões. No caso específico do Rio de Janeiro, a União Europeia foi o segundo maior parceiro comercial no período, com intercâmbio de US$ 16,1 bilhões.
A Firjan chama atenção para os efeitos tarifários do acordo após a ratificação. Pelo texto negociado, 95% das linhas tarifárias das exportações do Mercosul para a União Europeia terão alíquota zero em prazos que variam de quatro a 12 anos. Em sentido inverso, 91% das tarifas aplicadas pelo Mercosul às importações europeias serão eliminadas de forma gradual, com diferentes cestas de produtos sujeitas à desgravação imediata ou linear, em prazos que podem chegar a até 30 anos no caso de itens considerados sensíveis, como veículos automotivos baseados em novas tecnologias.
A federação fluminense também destaca avanços em temas como barreiras não tarifárias, harmonização de normas técnicas e compromissos relacionados ao desenvolvimento sustentável. “A Firjan permanecerá atenta às próximas etapas do processo de implementação do Acordo Mercosul-UE com o objetivo de contribuir para o fortalecimento da competitividade e da inserção internacional da indústria fluminense”, afirmou a entidade.
“Entusiasmo”
A Fiesp, por sua vez, manifestou “entusiasmo” com a autorização concedida pelo lado europeu e ressaltou que a entrada em vigor do acordo dependerá agora da assinatura formal e da ratificação pelo Congresso Nacional e pelo Parlamento Europeu. Para a entidade, apesar de não ser um texto perfeito, o acordo representa um ponto de equilíbrio possível entre os interesses de 31 países.
Em nota à imprensa, a federação paulista lembrou que acompanhou e participou ativamente das negociações ao longo das últimas décadas e avalia que o tratado tende a mudar de forma relevante a maneira como empresas dos dois blocos se relacionam comercialmente, seja na importação, na exportação ou nos investimentos.
Recém-empossado na presidência da Fiesp, o empresário Paulo Skaf afirmou que o desafio principal começa agora, com a necessidade de elevar a produtividade e garantir condições de concorrência mais equilibradas para que o setor industrial brasileiro aproveite as oportunidades abertas pelo acordo. “Para a Fiesp, o trabalho de verdade começa agora. Caberá a todos nós inovar, melhorar a produtividade e buscar incessantemente a excelência da porta para dentro das fábricas, onde já fazemos frente aos competidores europeus. E trabalharemos para assegurar a isonomia competitiva que permita ao empreendedor nacional prosperar e tirar o máximo proveito das oportunidades que o acordo oferece”, escreveu.
As duas entidades convergem na avaliação de que, embora ainda dependa de etapas institucionais para entrar em vigor, o acordo Mercosul-União Europeia tem potencial para redefinir o posicionamento da indústria brasileira no comércio internacional e exigirá adaptações internas para que seus efeitos sejam plenamente aproveitados.