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The ghost in the machine – Por que a recuperação do petróleo venezuelano é uma miragem política

Por Felipe Germini
Fundador e diretor-executivo da Germini Energy

Ao renegar repetidamente acordos e adotar um nacionalismo de recursos que marginalizou parceiros internacionais, o Estado venezuelano efetivamente esvaziou sua própria estatal, a PDVSA. Hoje, a PDVSA é um fantasma do que já foi — falida e desprovida da capacidade operacional necessária para liderar uma recuperação nacional.

A transição energética global costuma nos levar a esquecer os fundamentos da política de recursos naturais. Olhamos para mapas, contamos reservas e calculamos preços de breakeven, ignorando a arquitetura invisível que permite que esses recursos cheguem ao mercado: as instituições. No caso da Venezuela, a narrativa frequentemente simplifica um apodrecimento institucional profundo como se fosse apenas uma questão de sanções e fuga de capitais. Mas, como observa Francisco Monaldi, a recuperação da indústria petrolífera da Venezuela não é um desafio técnico a ser resolvido, mas sim um desafio político a ser enfrentado.

Atualmente, a Venezuela responde por menos de 1% da produção mundial de petróleo, uma queda impressionante para um país que possui algumas das maiores reservas do mundo. Do ponto de vista puramente geológico, o país é um paraíso. Baixos riscos geológicos e custos de extração moderados significam que, sob um regime regulatório sensato, a produção permanece lucrativa mesmo quando os preços caem para 25-30 dólares por barril. Tecnicamente, a nação poderia bombear de quatro milhões a cinco milhões de barris por dia, em comparação com o nível estagnado atual de cerca de um milhão. No entanto, a distância entre o potencial técnico e a produção real é medida em bilhões de dólares e décadas de confiança perdida.

O principal obstáculo é um legado de um quarto de século de “chavismo”, durante o qual o Estado desmantelou sistematicamente os fundamentos da confiança dos investidores. Ao renegar repetidamente acordos e adotar um nacionalismo de recursos que marginalizou parceiros internacionais, o Estado venezuelano efetivamente esvaziou sua própria estatal, a PDVSA. Hoje, a PDVSA é um fantasma do que já foi — falida e desprovida da capacidade operacional necessária para liderar uma recuperação nacional. Isso deixa o trabalho pesado para as empresas estrangeiras, mas elas não são instituições de caridade. Elas exigem o que a Venezuela atualmente não pode oferecer: um arcabouço legal viável e competitivo, além de um consenso político duradouro que sobreviva à atual administração.

Existe um “wishful thinking” generalizado entre alguns atores do mercado de que o simples levantamento das sanções funcionará como uma varinha mágica, liberando uma enxurrada de investimentos. Essa visão é perigosamente míope. O alívio das sanções é uma pré-condição necessária, certamente, mas está longe de ser suficiente para desencadear o investimento de 100 bilhões de dólares necessário para a próxima década. Capitais dessa magnitude, com horizontes de desenvolvimento de vinte anos ou mais, não fluem para ambientes em que o Estado de Direito é uma variável, e não uma constante.

Sem uma mudança institucional genuína, provavelmente veremos uma recuperação bifurcada. A Venezuela pode atrair investimentos de “baixo risco e retorno rápido” (low-hanging fruit) — projetos de curto prazo, voltados à recuperação rápida de custos. Embora estes possam proporcionar um aumento modesto na produção, são essencialmente extrativistas por natureza e não fazem nada para reconstruir a infraestrutura de longo prazo da indústria. Os grandes projetos, intensivos em capital, que devolveriam à Venezuela o status de potência energética global, permanecerão fora de alcance enquanto o risco político não for mitigado.

A questão fundamental é se a liderança venezuelana é capaz da autocorreção radical necessária para restaurar a confiança internacional. Uma recuperação significativa é possível, mas exige mais do que apenas uma mudança na retórica ou um levantamento temporário de sanções. Exige uma mudança fundamental na forma como o Estado se relaciona com o capital privado e um compromisso com a permanência institucional que está ausente há vinte e cinco anos. Até lá, o petróleo da Venezuela continuará sendo um ativo dormente, vítima não da terra, mas dos homens que governam sobre ela.

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