O Brasil construiu o futuro. Agora está pagando para desligá-lo.
Por Felipe Germini
Fundador e diretor-executivo da Germini Energy
Quando o sistema começa a cortar renováveis de forma estrutural, o valor da energia muda de natureza. MWh deixa de valer só pelo preço. Passa a valer pelo lugar, pela hora e pela capacidade de despacho. Em português claro: energia no lugar errado, no momento errado e sem como ser armazenada vale pouco — mesmo que seja limpa, barata e abundante
O dado é indecente: o Brasil conseguiu erguer, em tempo recorde, um dos maiores parques eólicos e solares do planeta — e agora paga para não usar uma parte relevante dessa energia. Não é falta de vento. Não é falta de sol. É excesso de promessa empurrada para dentro de um sistema que não foi desenhado para absorvê-la. Curtailment virou o nome técnico de uma contradição nacional: produzimos como país do futuro, operamos como país do passado.
E aqui vale ir direto ao ponto. Curtailment não é “ineficiência operacional”. É racionamento ao contrário. É o operador dizendo ao gerador: “eu sei que você pode produzir, mas eu não tenho como receber, transportar ou manter o sistema estável com essa energia agora.” O megawatt-hora simplesmente não entra. Ele deixa de existir economicamente.
Para dar a dimensão real do que isso significa: os cerca de 33 milhões de MWh cortados equivalem a mais do que o consumo anual inteiro de estados como Alagoas e Sergipe somados. Não estamos falando de ruído estatístico. É como se dois estados brasileiros tivessem sido desconectados da tomada ao longo de um ano — não por escassez, mas por excesso de oferta que o sistema não conseguiu engolir.
A manchete que circulou nos últimos dias não é só mais um número grande para inflar apresentações. Ela expõe uma fratura estrutural que o discurso bonito da transição energética insiste em varrer para baixo do tapete: gerar energia virou a parte mais fácil. Integrar virou o problema. E integrar exige rede, flexibilidade, demanda e regras que mexem em interesses bem estabelecidos.
O Brasil vive um choque geográfico que poucos admitem em público. A produção renovável explode no Nordeste. O consumo pesado mora no Sudeste. No meio, linhas saturadas, gargalos regionais e um sistema que ainda opera com uma lógica de outra era: hidrelétricas comandando o ritmo, térmicas como seguro caro e renováveis como complemento. Só que o complemento virou protagonista. E protagonista sem palco vira estorvo.
Há quem trate o curtailment como “efeito colateral natural do crescimento”. É uma anestesia confortável. Porque o corte de geração redistribui risco — e risco nunca fica no ar. Ele cai no colo de alguém. Na prática, o investidor que acreditou que seu principal risco era o vento, agora descobre um risco muito mais corrosivo: produzir e não poder vender.
Esse tipo de incerteza não aparece em planilha de engenharia. Mas aparece no apetite de capital. Banco odeia risco que não consegue precificar. E quando o curtailment deixa de ser exceção e vira tendência, ele passa a funcionar como uma intervenção disfarçada: muda o fluxo de caixa, altera o IRR (Internal Rate of Return ou Taxa Interna de Retorno, em tradução do inglês) e força renegociações silenciosas. Engenharia, quando mexe em dinheiro, também é política.
A consequência de segunda ordem é ainda mais profunda. Quando o sistema começa a cortar renováveis de forma estrutural, o valor da energia muda de natureza. MWh deixa de valer só pelo preço. Passa a valer pelo lugar, pela hora e pela capacidade de despacho. Em português claro: energia no lugar errado, no momento errado e sem como ser armazenada vale pouco — mesmo que seja limpa, barata e abundante.
Isso cria, sem ninguém assumir, uma nova hierarquia de ativos no setor elétrico brasileiro. Quem tem flexibilidade — armazenamento, resposta da demanda, contratos inteligentes, hibridização — vai capturar valor. Quem só tem geração intermitente vai absorver o choque. O sucesso da transição começa a produzir seus próprios perdedores.
O paradoxo é quase cruel. O Brasil se vende ao mundo como potência renovável enquanto, nos bastidores, começa a discutir se ainda faz sentido conectar mais projetos em certas regiões. Não é uma crítica à eólica ou à solar. É uma crítica ao planejamento. Você pode ter a melhor comida do mundo; sem prato, vira desperdício.

O gráfico acima ilustra a magnitude financeira do desperdício de 33 milhões de MWh (33 TWh) por ano no Brasil, comparando três perspectivas de custo diferentes:
- Cenário Base (PLD – R$ 7,2 Bilhões): Reflete o valor mínimo de mercado se essa energia fosse vendida no mercado de curto prazo. Mesmo no cenário mais “barato”, a perda é bilionária.
- Custo Real de Contratação (ACR – R$ 10,1 Bilhões): Este é o valor mais próximo do que o sistema elétrico efetivamente paga em leilões. Representa o custo da energia que foi planejada e contratada, mas que não pôde ser entregue aos consumidores.
- Custo de Substituição (Térmicas – R$ 25,0 Bilhões): Este é o “pior cenário”. Quando o sistema corta energia eólica e solar no Nordeste e precisa acionar termelétricas caras no Sudeste/Sul para suprir a demanda local, o custo para a sociedade mais que dobra.
E isso afeta algo maior do que o setor elétrico. O país sonha em atrair data centers, hidrogênio verde, indústria eletrointensiva. Só que indústria séria não se move por slogans. Ela se move por previsibilidade. Se o recado implícito é “a energia existe, mas pode ser cortada”, você não está vendendo abundância — está vendendo incerteza. E capital foge da incerteza.
Ao mesmo tempo, o curtailment abre uma janela estratégica gigantesca. Toda energia cortada é energia barata esperando por alguém que saiba usá-la. Quem conseguir casar excesso de oferta com demanda flexível — seja por baterias, seja por indústria bem localizada, seja por novos modelos contratuais — transforma desperdício em vantagem competitiva. O Nordeste deixa de ser “longe do consumo” e vira “perto do excesso”. Isso muda tudo.
Só que nada disso acontece sem decisões duras. Reforçar transmissão custa. Criar mercado de flexibilidade custa. Remunerar armazenamento custa. A tentação política é empurrar o problema com a barriga e deixar o investidor absorver o impacto. O Brasil já fez isso antes, em outros setores. Nem sempre terminou bem.
A pergunta que realmente importa não é se o País vai continuar adicionando renováveis. Ele vai. A pergunta incômoda é outra: vamos tratar o curtailment como um detalhe técnico conveniente, ou admitir que ele já virou o termômetro de uma transição mal integrada – e redesenhar o jogo antes que o capital resolva jogar em outro tabuleiro?