Porto de Santos
Porto de Santos celebra 134 anos como motor do desenvolvimento do Brasil
Da conclusão dos primeiros 260 metros de cais, em 1892, ao maior complexo portuário da América Latina, história do Porto se confunde com a do país e da cidade
Mais do que um aniversário simbólico, o dia 2 de fevereiro marca a consolidação de um projeto ousado que transformou a paisagem, a economia e a vocação do litoral paulista — e que ajudou a moldar o desenvolvimento do Brasil. O Porto de Santos, que completa 134 anos, nasceu de uma iniciativa ousada de dois empresários, que apostaram no cais que viria a se tornar o principal do País e da América Latina mais de um século depois.
“A história oficial começa em 1892, com a conclusão dos primeiros 260 metros de cais reto, mas suas raízes são ainda mais profundas e carregadas de desafios, apostas e visão de futuro”, resume Jorge Valias de Souza, encarregado do Museu do Porto de Santos. É no museu, guardião dessa memória, que a trajetória do maior porto da América Latina ganha contornos humanos, técnicos e sociais.
A data de 2 de fevereiro de 1892 é considerada o nascimento do Porto organizado de Santos. Naquele dia, foi entregue a primeira etapa de uma obra extremamente complexa para a época, que marcou a transição definitiva de um modelo artesanal, herdado do período colonial, para um porto moderno, com a atracação do navio inglês Nasmith. Antes disso, Santos operava com trapiches de madeira, onde as cargas ficavam expostas ao tempo. O principal produto do Brasil no início do século XX, o café, perdia qualidade ao ficar sujeito a odores, umidade e contaminações antes de chegar à Europa.
A mudança começou a ser desenhada ainda em 1888, com a criação da Empresa de Melhoramentos do Porto de Santos. A concessão, inicialmente de 39 anos — depois ampliada para 90 — foi entregue a um grupo de investidores liderado por Cândido Gaffrée e Eduardo Palassin Guinle – ambos herdeiros da aristocracia francesa à época. A aposta era arriscada: não havia no Brasil experiência anterior com um porto organizado nos moldes modernos. Tratava-se de um investimento de longo prazo, com retorno incerto e custos elevados.
O desafio técnico era enorme. A construção exigiu o estaqueamento do cais a 14 metros de profundidade em um terreno extremamente complexo. “Essa tecnologia simplesmente não existia em outros lugares”, explica Jorge Valias. Décadas depois, engenheiros holandeses vieram estudar em Santos como essa técnica havia sido aplicada com sucesso. “A obra só foi possível graças aos trabalhadores portuários”, afirma o encarregado do museu.
O novo porto nasceu diretamente ligado ao café, produto que impulsionava a economia nacional. Ao mesmo tempo em que se estruturava para exportar a produção cafeeira, Santos passava a receber maquinários de última geração para a própria construção do cais e, mais tarde, se consolidava como porta de entrada de insumos e produtos para o parque industrial paulista. A ferrovia São Paulo Railway Company (SPR), inaugurada em 1867 com tecnologia inglesa e apoio do Barão de Mauá, foi decisiva nesse processo, encurtando distâncias e integrando o interior produtor ao litoral exportador.
A virada definitiva veio com o avanço do café pelo Vale do Paraíba e, depois, pelo Oeste Paulista. A necessidade de escoar grandes volumes de produção fez de Santos a escolha natural. “A partir do início do século XX, a cidade passou a receber fluxos intensos de café, impulsionados pela ferrovia, pela comunicação via telégrafo e pela criação de uma infraestrutura integrada que envolvia porto, armazéns, Bolsa do Café e serviços logísticos. Na década de 1930, Santos ultrapassou o Rio de Janeiro e se tornou o principal porto exportador de café do Brasil”, conta Valias.
A modernização mais recente veio a partir da década de 1980, com a introdução da movimentação de contêineres. “A chegada do contêiner é o principal elo de ligação do Porto moderno”, destaca Jorge Valias. A nova lógica logística exigiu grandes terminais especializados, além de parcerias com grupos internacionais.
Projetos
Entre os projetos que simbolizam esse futuro está o Tecon Santos 10, previsto para se tornar o maior terminal de contêineres já construído no porto, com investimentos estimados em mais de R$ 6 bilhões. Outro marco é o túnel imerso entre Santos e Guarujá, uma ideia discutida desde 1927 e que agora avança como uma das maiores obras de infraestrutura da região. A expectativa é de conclusão até 2030, com geração de cerca de 10 mil empregos diretos.