Porto de Santos
Obra do túnel Santos-Guarujá avança sob expectativas e cautela
Enquanto o governo de São Paulo detalha cronograma e impactos positivos, prefeituras monitoram efeitos urbanos, sociais e ambientais da intervenção
O Porto de Santos respira junto com a cidade. O maior porto da América Latina pulsa no coração da Baixada Santista e carrega consigo não apenas contêineres e cargas, mas também os desafios de uma região que cresce e se transforma. Entre essas situações-problemas, a mobilidade sempre ocupou lugar de destaque. A travessia entre Santos e Guarujá, por décadas realizada apenas por balsas, ganha agora uma nova perspectiva com o início da construção do túnel subaquático que une as duas cidades.
A obra promete transformar o cotidiano da região, encurtando distâncias e fortalecendo conexões entre o porto, as praias e as áreas urbanas. Depois de cem anos de espera, o projeto sai do papel e entra na fase de execução, trazendo consigo expectativas de desenvolvimento econômico, geração de empregos e impulso ao turismo.
A infraestrutura contempla não apenas a passagem de veículos, mas também um sistema de transporte sobre trilhos e espaços para pedestres e ciclistas, desenhando um futuro de conexões mais ágeis e sustentáveis para a Baixada Santista.
O grupo português Mota-Engil venceu o leilão e assumiu a responsabilidade pela construção da ligação subaquática. O Governo de São Paulo formalizou o contrato de parceria público-privada com a concessionária, estabelecendo prazos e etapas para a execução.
O secretário estadual de Parcerias em Investimentos, Rafael Benini, detalhou o cronograma: “Assinamos o contrato com a concessionária do Túnel Santos-Guarujá no último dia 29 de janeiro. O que era impossível e esperado há 100 anos nós vamos tornar possível. Agora nós começaremos a discutir o projeto funcional e o projeto executivo. No ano que vem, iniciaremos a mobilização e o início das obras”.
O planejamento prevê a fabricação de seis elementos que, após a submersão, formarão a estrutura do túnel em 2028. “Em 2029, a gente começa a submergir esses elementos formando o túnel, para que em 2030, a gente tenha o comissionamento do túnel e ele entregue para a população”, explicou o secretário. Além da passagem para veículos, o projeto contempla o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e faixas exclusivas para ciclistas e pedestres, oferecendo alternativas de mobilidade sustentável.
Apesar do avanço, a Autoridade Portuária de Santos (APS) contestou a validade jurídica do contrato, apontando questões relacionadas à falta de assinaturas e outros aspectos formais. A contestação introduz incertezas sobre o cronograma e pode representar obstáculos ao aporte financeiro necessário para a continuidade da obra.
Vigilância
Enquanto o estado avança com o cronograma, a Prefeitura de Santos mantém posição de vigilância sobre os impactos que a obra trará ao território municipal. O secretário de Assuntos Portuários e Emprego de Santos, Bruno Orlandi, reconhece a importância estratégica do projeto para a mobilidade urbana e para a dinâmica do Porto de Santos, mas reforça que o município acompanha de perto cada etapa.
“A Prefeitura de Santos atua de forma integrada no planejamento urbano e viário para a chegada do túnel, avaliando impactos no sistema de mobilidade, no ordenamento do entorno e na convivência entre a infraestrutura da obra e as áreas residenciais”, enfatiza Orlandi.
A atenção concentra-se nas áreas diretamente afetadas pela intervenção, sobretudo o bairro do Macuco, onde a infraestrutura da obra conviverá com áreas residenciais. Para garantir que a população local não sofra com os transtornos da construção, o município apoia-se no Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), instrumento que orienta as decisões sobre medidas compensatórias e mitigadoras.
O discurso municipal reflete a tentativa de equilibrar os benefícios do desenvolvimento com a proteção das comunidades afetadas. “A Prefeitura de Santos entende que grandes obras de infraestrutura precisam caminhar junto com responsabilidade social, diálogo com a população e transparência”, diz Orlandi.
Ele acrescenta que “o Túnel Santos-Guarujá tem potencial para trazer ganhos importantes de mobilidade, desenvolvimento econômico e integração regional, mas esses benefícios devem ser construídos com respeito às comunidades impactadas”.
Do outro lado do estuário, a Prefeitura de Guarujá enxerga a obra como porta de entrada para uma nova fase de desenvolvimento. A redução do tempo de deslocamento entre as cidades promete ampliar consideravelmente o fluxo de visitantes, beneficiando tanto quem se hospeda quanto quem realiza passeios de curta duração. O município, tradicionalmente procurado por suas praias e pela estrutura de receptivo turístico nos finais de semana, prepara-se para receber um volume maior de turistas com a melhoria da mobilidade regional.
A expectativa vai além do turismo de lazer. A administração municipal estima a geração de cerca de 9 mil empregos diretos e indiretos durante a execução da obra, movimentando hotelaria, gastronomia e comércio.
A nova infraestrutura tende a valorizar a região e atrair investimentos em empreendimentos turísticos e imobiliários, modificando o perfil econômico da cidade. O prefeito Farid Said Madi celebra o momento: “O Túnel Santos-Guarujá é uma obra histórica, com efeitos duradouros na vida da população e na infraestrutura do município”.
Porém, o otimismo também convive com preocupações ambientais. Guarujá abriga uma diversidade de ecossistemas costeiros cuja fragilidade exige cuidados durante a execução da obra. A Prefeitura conduz estudos técnicos para avaliar possíveis impactos ambientais e aguarda a conclusão dessas análises para dimensionar as medidas mitigadoras e compensatórias necessárias.
O compromisso da gestão municipal passa pela garantia de que o desenvolvimento ocorra de forma integrada à sustentabilidade ambiental, preservando as características naturais que marcam a identidade do município.
Recursos e impacto
A obra será realizada com recursos da União, por meio da própria Autoridade Portuária, complementada com verba do governo estadual, em um investimento estimado em R$ 6,8 bilhões.
Segundo a instituição, os principais beneficiários serão cerca de 80 mil pessoas que atravessam diariamente o estuário. Para o porto, os ganhos incluem a redução do percurso rodoviário de mais de 40 quilômetros para menos de mil metros, maior segurança para a navegação com o fim do cruzamento das balsas com os cargueiros, e maior mobilidade de cargas e trabalhadores entre as duas margens.
A interação facilitada entre os dois lados do complexo portuário aumenta a importância de Santos como hub logístico do Brasil.
“Os usuários do porto terão opções econômicas a escolher dentre as oferecidas pelos terminais, podendo usar a que melhor ofereça ligações com o sistema marítimo brasileiro e da América do Sul”, destaca a APS.