Homens-albatroz
“É do espírito dos povos desbravar, é da natureza de alguns ir à frente, bandeirantes que são desde que se formaram os rebanhos humanos. Sempre foi assim, as terras americanas são um rico exemplo, mescla de povos originários e ibéricos, onde um caminho por trilhas levava da Serra do Mar ao território inca.”
Os homens, tal qual as aves, não são verdadeiramente iguais. Gaivotas e pelicanos vivem à beira das costas que lambem os mares, na busca dos peixes que trazem os barcos singrando as ondas dos ventos inclementes. Albatrozes não.
Todos encantam com o bater de asas e algazarra na disputa dos restos lançados de bordo, uma cena que em alguns mares se enriquece com outros personagens. Nunca esquecerei os pelicanos que disputam com lobos e leões marinhos do Pacífico Sul o que resta das redes no cais de Valparaiso.
Nunca esquecerei as gaivotas que nos portos de Nápoles e de Marselha acordaram-me no convés do navio que navegava no Mediterrâneo. Minha alma habita os mares, meu coração se aninha na beira das águas atlânticas de Santos, meu porto seguro, também para as gaivotas.
Minha admiração é maior pelo albatroz, ave imensa que, de asas abertas, pode medir mais de três metros. Não é seu tamanho que tanto me encanta. É sua capacidade de voar tanto, migrar pelos sete mares sem pousar, surfar e até dormir no ar, com asas abertas imóveis, em meio à calmaria ou o rigor dos ventos.
Os homens são assim. Homens-gaivota, homens-albatroz. Não sei se nascem predestinados ou se transmudam de espécie e se fortalecem como as rochas que serpenteiam os mares nas costas da vida de cada um.
Navegar é preciso, viver não é preciso. Há nos homens-albatroz o sentido do voo e da descoberta. Enquanto tantos permanecem nas beiras do tempo alimentados por restos de sardinhas, há os que navegam nos sonhos e desafios, abrindo caminhos.
É do espírito dos povos desbravar, é da natureza de alguns ir à frente, bandeirantes que são desde que se formaram os rebanhos humanos. Sempre foi assim, as terras americanas são um rico exemplo, mescla de povos originários e ibéricos, onde um caminho por trilhas levava da Serra do Mar ao território inca.
São os homens-albatroz que abrem caminhos, que persistem ainda hoje no afã de integrar o mundo com mercadorias e gente. A América do Sul está prestes a ligar por terra o Atlântico e o Pacífico. O México planeja por mar, já não bastasse terem feito o encontro das águas no Panamá. Caminhos são fundamentais. Integrar ainda mais. Trocar e aproximar.
Esta semana pensei na missão do Brasil Export, ao ler que o CEO, no mesmo dia tratou da aproximação do Brasil com Cabo Verde, pretendida porta para a África, e a integração com o Paraguai, cada vez mais necessária com o Mercosul. São caminhos que se abrem ou se fortalecem.
Há de se ter muita ousadia e determinação. Um contador de histórias, Ewandro Magalhães, lembrou no Instagram o quanto é desafiador superar o medo e fazer a descoberta. Citou Fernando Pessoa, com seu poema Mar Português, que fala no Cabo Bojador, região costeira do Saara Ocidental que os navegantes não conseguiam superar ao descerem ao longo da África.
Gil Eanes, a mando do Infante Dom Henrique, após tantos fracassos e perdas, numa singela embarcação contornou o mar fronteiriço de Bojador em 1434, evitando os bancos de areia, os mistérios e tragédias. E conseguiu, abrindo a Era dos Descobrimentos.
Daí Pessoa haver dito:” Quem quer passar além do Bojador/Tem que passar além da dor/Deus ao mar o perigo e o abismo deu/Mas nele é que espelhou o céu”.
Só um homem-albatroz sabe seu esforço. Só um poeta para sentir o sentido de um desbravador. Terminei a semana pensando no Bojador e no albatroz, essa ave incansável que navega pelos ares e um dia volta ao lar, onde procria antes de mais uma vez partir para mares nem sempre dantes navegados.