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Além do Cimento: a “engrenagem invisível” que faz a logística funcionar

Por Anderson Abreu
Diretor executivo do ParklogBR/ES, com mais de 25 anos de experiência nos setores de logística, mineração, infraestrutura e indústria.

Ter trilhos, portos e estradas de última geração não garante, por si só, uma logística barata ou eficiente. O paradoxo é conhecido: o Brasil bate sucessivos recordes de movimentação de cargas, mas o custo para transportá-las segue elevado e os prazos continuam marcados pela incerteza.

O problema central não reside na engenharia ou no que foi construído. Ele reside na governança, entendida como a capacidade de organizar, no território, decisões econômicas, logísticas e institucionais ao longo do tempo. A conectividade física é apenas o esqueleto; as regras são o sistema nervoso que permite que o corpo se mova com coordenação, previsibilidade e inteligência.

 

1.⁠ ⁠A armadilha de olhar apenas para o ativo

Durante muito tempo, medimos o sucesso logístico pelo inventário de obras. Mais trilhos significavam maior progresso; mais terminais, maior eficiência. Esse raciocínio, embora compreensível, tornou-se insuficiente diante da complexidade das redes globais de suprimentos e da necessidade de resiliência dos ativos.

A logística moderna não opera como um conjunto de peças isoladas; ela funciona como uma rede integrada. Quando contratos e obrigações são desenhados apenas para um elo específico, seja o porto, a ferrovia ou a rodovia, cria-se o que podemos chamar de especialização desintegrada.

⁠A analogia do bastão: É como uma corrida de revezamento em que cada atleta é excelente individualmente, mas a equipe não treinou a passagem do bastão. É justamente nesse momento, na interface entre contratos e operações, que o custo aumenta e a velocidade sistêmica se perde.

 

2.⁠ ⁠O desafio de combinar diferentes “donos”

Quando uma única empresa controla toda a cadeia, a coordenação é uma consequência natural da gestão. O desafio real surge quando vários atores compartilham o mesmo caminho: operadores distintos, terminais diversos e autoridades públicas com competências variadas.

Nesses ambientes, a eficiência não nasce por decreto nem por inércia de mercado. Ela exige uma governança de rede que promova a segurança jurídica e a simbiose entre os investimentos. Quando os atores do setor se sentam à mesa para discutir o alinhamento entre as vocações produtivas do território e a oferta de infraestrutura, o objetivo não é sobrepor interesses, mas sim maximizar o retorno do ativo e a competitividade real do corredor.

 

3.⁠ ⁠Falando a mesma língua: dados e métricas

Para que essa engrenagem funcione, todos precisam falar o mesmo idioma. Hoje, cada elo da cadeia mede seu desempenho com réguas próprias, muitas vezes desconectadas do resultado do corredor como um todo.

O que realmente importa para a economia não é apenas o volume movimentado em um terminal, mas o tempo total entre a origem e o destino. A ausência de métricas compartilhadas empurra as decisões para o campo das percepções parciais e da assimetria de informação.

A adoção de indicadores sistêmicos funciona como um “Waze logístico”. Ao tornar visíveis os gargalos e as janelas de oportunidade, em tempo real, reduz-se a incerteza e melhora-se a precisão do investimento, seja ele público ou privado. É a transformação do dado em ativos de confiança.

 

Conclusão: o próximo ciclo da infraestrutura

O Brasil já aprendeu a responder à pergunta “quanto investir”. O próximo passo, mais sofisticado e urgente, é enfrentar a questão: “como coordenar”.

Sem uma governança que conecte ativos, contratos e dados, continuaremos construindo apenas caminhos de passagem, ou seja, infraestruturas que o território apenas assiste passar. Com uma infraestrutura institucional robusta, esses caminhos se tornam eixos de desenvolvimento e soberania.

Mais do que eficiência logística, o que está em jogo neste novo ciclo é a gestão territorial estratégica: a capacidade de transformar trilhos e berços portuários em vetores de diversificação econômica, resiliência e valor compartilhado. Este é o patamar onde a logística deixa de ser um custo e passa a ser uma estratégia de Estado, garantindo que a infraestrutura seja, acima de tudo, o alicerce de um território próspero e perene.

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