A safra que clama por trilhos, asfalto e berços de atracação
O Brasil consolidou sua posição como o celeiro do mundo, mas esse sucesso “da porteira para dentro” continua sendo testado pela precariedade da infraestrutura “da porteira para fora”. O recente anúncio de investimentos e as discussões sobre o “superciclo” de infraestrutura trazem à tona uma urgência inadiável: o escoamento da produção agrícola não pode continuar sendo o elo mais fraco da economia nacional. Para que o agronegócio mantenha sua competitividade, a modernização dos transportes deve deixar de ser uma promessa de governo para se tornar uma garantia de Estado.
O custo logístico no Brasil é um imposto invisível que corrói a renda do produtor e encarece o alimento na mesa do consumidor. Enquanto grandes potências agrícolas utilizam uma matriz intermodal equilibrada, o Brasil ainda se vê refém de rodovias saturadas e mal conservadas. Cada buraco no asfalto e cada fila de navios nos portos representa uma perda direta de divisas. Investir na infraestrutura de transportes — seja na ampliação da malha ferroviária, na dragagem de portos ou na melhoria das rodovias — é a única forma de evitar que a ineficiência logística anule a produtividade recorde conquistada no campo.
A estratégia de diversificação intermodal é o caminho para o equilíbrio. O avanço das ferrovias e a exploração do potencial das hidrovias no Arco Norte são passos decisivos para retirar milhares de caminhões das estradas, reduzindo o custo do frete e a pegada de carbono. Quando o Poder Público incentiva investimentos em terminais privados e acelera a concessão de eixos rodoviários estratégicos, ele está, na verdade, protegendo o Produto Interno Bruto (PIB). Uma logística robusta confere ao País a previsibilidade que o mercado internacional exige: de nada adianta colher em tempo recorde se o produto apodrece no caminho ou se torna inviável pelo custo do transporte.
É imperativo que a convergência entre os recursos do BNDES e a agilidade do setor privado continue a ser estimulada. A infraestrutura de transportes precisa ser encarada como a espinha dorsal do desenvolvimento. O Brasil não pode permitir que a sua pujança agrícola seja limitada por gargalos que já deveriam ter sido superados no século passado. Facilitar o escoamento da produção é mais do que um imperativo logístico; é uma questão de soberania econômica. O agro é o motor do Brasil, mas a logística é a engrenagem que permite que esse motor funcione sem sobressaltos.