Porto de Santos
Acidente reacende debate sobre segurança na navegação
Especialista avalia que conceito de safety, que integra política de seguranças, é essencial no setor da navegação
Um acidente envolvendo um navio cargueiro e duas balsas no Porto de Santos, no litoral de São Paulo, na última segunda-feira (16), chamou a atenção pela gravidade da ocorrência, apesar de não ter deixado vítimas. O caso acende um alerta para os riscos nas operações portuárias, em um cenário em que os acidentes de navegação representam quase 40% de todas as ocorrências marítimas investigadas no mundo, segundo especialistas.
O inquérito que apura as causas da colisão ainda não tem data para ser concluído. Uma das embarcações atingidas já voltou a operar normalmente – a outra segue em manutenção.
Segundo especialistas, diversos fatores podem ter contribuído para o acidente. Pelas imagens obtidas pelo BE News que mostram o mapa da navegação do navio mercante Seaspan Empire, é possível observar que o navio cargueiro tenta atracar entre duas embarcações que já estavam posicionadas no cais, o que pode indicar limitação de espaço e ocupação dos berços.
O CEO da Naval Port, Alexandre Santiago, avalia que a combinação de variáveis técnicas e humanas costuma estar por trás de ocorrências desse tipo. “No caso específico de Santos, diversos fatores podem ter contribuído, talvez falha de comunicação, avaliação da própria manobra, questão de consciência situacional incompleta, não saber qual é a disponibilidade daquele berço, capacidade de receber aquele navio naquele contexto específico, limitação na detecção de embarcações próximas, fatores ambientais, aspectos humanos. Muita coisa sempre contribui para o desaguar em um acidente, afinal das contas”, afirma o especialista em gestão aquaviária.
Ele destaca ainda que as balsas envolvidas não apareceram no registro do AIS, sistema de identificação automática de embarcações. “Um ponto relevante também para destacar é que as balsas envolvidas não apareceram no registro do AIS, o que reforça também a importância de utilizar sistemas integrados de consciência situacional”, completa.
70 ACIDENTES
Dados da Marinha mostram que, somente neste ano, já foram instaurados 70 inquéritos administrativos para apurar incidentes envolvendo embarcações nos portos brasileiros. Até o fim de janeiro, foram registrados oito acidentes com navios e três ocorrências com balsas e empurradores. No ano passado, ao todo, foram 839 inquéritos apurados pela Marinha, número 3% menor que o registrado em 2024.
Para Alexandre Santiago, há uma percepção equivocada de que operações em baixa velocidade oferecem pouco risco. “No entanto, por ser uma operação em que existe proximidade com infraestruturas fixas, tráfego intenso de navios e alta dependência do fator humano, o ambiente portuário é altamente sensível a riscos”, explicou.
O especialista defende que o setor avance no conceito de “safety”, com ações integradas de segurança. “A segurança não é apenas prevenção de acidentes, mas também previsibilidade operacional, que no ambiente portuário se traduz diretamente em eficiência, competitividade e segurança. É plenamente possível reduzir drasticamente a probabilidade e a severidade desses acidentes”, diz.
Ele aponta que o principal desafio está na fragmentação das informações. “Hoje dependemos de dados dispersos, comunicação por rádio, planilhas e percepção humana isolada, o que limita a previsibilidade da operação. A mitigação passa pela consolidação dessas informações em uma base de consciência situacional integrada, capaz de unificar planejamento, execução e monitoramento de forma compartilhada”, conclui.