quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Editorial

A resiliência democrática e o futuro Brasil-Coreia

A visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Seul, nessa segunda-feira (23), encerra um hiato diplomático de 15 anos e inaugura uma etapa de pragmatismo e sofisticação nas relações bilaterais. Ao elevar o relacionamento entre Brasil e Coreia do Sul ao patamar de parceria estratégica, os dois países não apenas assinam memorandos de entendimento em áreas de ponta, como biotecnologia e inteligência artificial, mas firmam um pacto de valores. Em um mundo fustigado por extremismos e desinformação, a união entre a maior economia da América Latina e um dos titãs tecnológicos da Ásia envia um recado contundente sobre a força da democracia e a necessidade de cooperação multilateral.

A importância dessa parceria reside na simetria de desafios e ambições. Ambos os países superaram recentemente ataques severos às suas instituições democráticas, provando que a resiliência política é o alicerce necessário para o desenvolvimento econômico. Esse alinhamento ético pavimenta o caminho para um plano de ação robusto que pretende, nos próximos três anos, transformar o Brasil no principal destino de investimentos sul-coreanos, indo além da produção industrial tradicional para abraçar a bioeconomia, a segurança alimentar e a transição digital.

No campo comercial, a retomada do diálogo para o acordo Mercosul-Coreia do Sul e a pressão pela abertura do mercado para a carne bovina brasileira são passos vitais para equilibrar a balança e reduzir custos para o consumidor coreano. 

A parceria, no entanto, brilha especialmente na troca de inteligência: a importação de práticas de “hospitais inteligentes” para São Paulo e o intercâmbio científico no setor aeroespacial mostram que o Brasil busca na Coreia o espelho de uma industrialização acelerada e sustentável.

Contudo, para que essa avenida de cooperação floresça, o Brasil precisa garantir a “lição de casa” da segurança jurídica e da estabilidade interna. O recente impasse no Porto de Santarém, onde a ocupação de um terminal estratégico por movimentos sociais gerou paralisia operativa e danos materiais, serve de alerta. Investidores globais — como os gigantes coreanos da tecnologia e logística — buscam ambientes onde o direito à manifestação não atropele a ordem legal e a continuidade das atividades essenciais. A crise no Pará deve ser resolvida com celeridade e observância estrita à lei, para que incidentes locais não obscureçam a imagem de um país seguro e confiável que o governo tenta projetar em Seul.

A convergência cultural — do fenômeno K-Pop à Bossa Nova — já une os povos no campo do afeto; agora, cabe aos Estados garantir que os trilhos da economia e da ciência sejam igualmente sólidos. O Brasil e a Coreia do Sul demonstram que, quando democracias resilientes se unem, o resultado é a ampliação da soberania e do bem-estar social. É hora de transformar o potencial dessa parceria em entregas concretas que conectem a inovação de Seul à pujança do interior brasileiro.

 

Compartilhe:
TAGS

Leia também