A outra margem do Atlântico: o imperativo da parceria com a África
O Brasil parece ter redescoberto que o Oceano Atlântico não é um abismo, mas uma ponte. O recente Fórum Empresarial Brasil-África do Sul, em Brasília, consolidou o que a geopolítica contemporânea já sinalizava: a aproximação com o continente africano, e especificamente com a África do Sul, não é apenas uma escolha diplomática por afinidade histórica, mas um imperativo estratégico para a nossa balança comercial. Ao defender a revisão do acordo entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral (SACU), o vice-presidente Geraldo Alckmin aponta para um horizonte de oportunidades que o País não pode mais negligenciar.
A importância de ampliar o comércio exterior com as nações africanas reside na complementaridade e na diversificação. Em 2025, a corrente de comércio bilateral saltou 11,6%, atingindo US$ 2,3 bilhões, um número que, embora crescente, ainda é modesto diante do potencial das duas maiores economias de suas respectivas regiões. O Brasil já exporta proteínas e veículos, mas o verdadeiro salto de qualidade está na integração das cadeias produtivas de maior valor agregado. Quando gigantes como Embraer, WEG e Marcopolo fincam bandeira em solo sul-africano, elas não estão apenas vendendo produtos; estão exportando inteligência industrial e criando um ecossistema de cooperação tecnológica.
A contundência deste novo ciclo comercial deve-se à ousadia de querer “ampliar as linhas tarifárias”. O fato de menos de 10% do comércio atual ser beneficiado por preferências tarifárias é um gargalo burocrático que asfixia o setor privado. Reformar o acordo Mercosul-SACU é a chave para destravar investimentos em setores cruciais como defesa, aeronáutica e minerais críticos. A África do Sul, detentora da maior frota de jatos da Embraer no continente, é o parceiro ideal para que o Brasil consolide sua presença no Hemisfério Sul, fugindo da dependência excessiva dos mercados tradicionais do Norte ou do Leste.
Além das trocas diretas, a parceria estratégica carrega um peso diplomático inestimável em fóruns como o G20 e o BRICS. Brasil e África do Sul compartilham desafios de redemocratização e desenvolvimento sustentável, o que confere a essa relação uma resiliência que vai além dos números. A cooperação em energia e segurança alimentar é o alicerce para que as duas nações liderem a voz do Sul Global em um mundo cada vez mais fragmentado e protecionista.
O Poder Público e o empresariado brasileiro devem abraçar esta “prioridade” com pragmatismo. A visita do presidente Cyril Ramaphosa e os acordos em biotecnologia e transição digital mostram que a agenda está madura. O Brasil precisa da África tanto quanto a África pode se beneficiar do Brasil. É hora de transformar a simpatia mútua em contratos, as raízes históricas em infraestrutura e o Atlântico em uma avenida de prosperidade compartilhada. O futuro do comércio exterior nacional também passa por Seul e Washington, mas ele decolará, com força e autonomia, quando cruzarmos definitivamente a margem sul do oceano.