Portos
Entre o cais e o microfone: o podcast que dá voz às mulheres do porto
Com gravações feitas em Roterdã e episódios semanais, a terceira temporada de “Lendárias e Portuárias” explorou a tensão entre porto, cidade e gênero
Quem passa por um trecho da orla de Santos e olha para o horizonte vê guindastes antes de ver o mar. O Porto de Santos, responsável por movimentar mais de um quarto de tudo que o Brasil exporta, define a silhueta da cidade, o cheiro do ar e o ritmo do trânsito. É também, historicamente, um espaço de homens. A pesquisa da IMO-WISTA Women in Maritime Survey 2024, conduzida com 94 países-membros da Organização Marítima Internacional e mais de 600 organizações privadas, revela que as mulheres representam 1% dos trabalhadores embarcados ativos no mundo. No setor privado marítimo como um todo (excluindo embarcados), a participação feminina chega a 16% e, ainda assim, caiu em relação aos 26% registrados em 2021.
No Brasil, o retrato não é diferente. Segundo dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) de 2024, as mulheres ocupam 17% das vagas no setor aquaviário. Quando o recorte vai para os cargos de direção, a fatia encolhe para 5,9%, de acordo com a Associação Brasileira de Entidades Portuárias (Abeph).
Mas o tema ganhou urgência institucional em março. Na primeira semana do mês, o Ministério de Portos e Aeroportos instalou o primeiro Grupo de Trabalho de Equidade de Gênero do Fórum dos Trabalhadores Portuários, com o objetivo de mapear barreiras estruturais e propor ações concretas de inclusão. Em paralelo, lançou a campanha “Assédio Não Embarca”, voltada ao combate à violência de gênero nos ambientes portuários. São iniciativas que chegam no mesmo mês em que o podcast Lendárias e Portuárias encerra sua terceira temporada.
É justamente essa contradição que alimenta o podcast santista. Criado pela empreendedora Ludmilla Rossi, CEO do Juicyhub, o projeto une um incômodo pessoal a uma lacuna real: como pode a chamada “cidade mais feminina do Brasil” ter tão poucas mulheres nos espaços de poder gerados pelo maior porto do continente?
“De um lado, o porto tem um poder econômico imenso. Do outro, apesar de Santos ser uma cidade com maioria feminina, há pouquíssimas mulheres em círculos de poder determinante para a economia da cidade”, explica Ludmilla.
A temporada estreou no dia 2 de fevereiro — aniversário do Porto de Santos — e encerrou no último domingo (8), Dia Internacional da Mulher. Ao longo dos cinco episódios semanais, a produção construiu uma metáfora que atravessou toda a narrativa: a relação entre porto e cidade como um casamento que, ao longo do tempo, foi perdendo equilíbrio.
“Por muito tempo, as cidades e seus portos eram como um casal, mantendo uma relação próxima e harmoniosa”, explica Rossi. Para ela, essa convivência foi se tornando codependente: o porto cresceu, se globalizou, se afastou espacial e mentalmente da cidade e as mulheres foram ficando ainda mais à margem desse processo. “No Brasil, há o fato de o porto não ser cidade, e sim uma entidade federal. Especificamente no Porto de Santos, ouvimos em falas das convidadas das temporadas anteriores que o porto é uma caixa fechada que hiperconcentra a economia da cidade”, afirma.
Em três temporadas, o podcast acumulou um repertório de histórias que, segundo Rossi, muitas vezes sequer existiam em formato sonoro antes. “Muitas mulheres que passaram pelo estúdio nunca tinham gravado um podcast, muitas estão realmente nos bastidores do setor e mandando muito bem”, diz.
Roterdã
A grande novidade desta temporada foi o deslocamento para além das fronteiras santistas. Os dois primeiros episódios foram gravados em Roterdã, na Holanda, sede do maior porto da Europa e referência mundial em revitalização portuária urbana — o projeto Kop van Zuid transformou antigos armazéns e cais abandonados em bairros vibrantes, verdes e habitáveis.
A ida à Holanda surgiu de uma conjunção de fatores. Rossi havia sido aprovada para uma bolsa de estudos da Vital Voices, organização norte-americana voltada ao empoderamento de mulheres líderes, com fase presencial em Haia. “Senti um arrepio imenso ao saber que a fase presencial seria em Haia”, lembra. Como a proximidade entre as cidades permitia uma escala, a equipe mergulhou em busca de histórias.
O timing foi providencial: em outubro de 2025, o Museu Marítimo de Roterdã estreava a exposição “Mulheres Marítimas”, em celebração aos 50 anos do Ano Internacional da Mulher da ONU. A equipe conseguiu gravar com Irene Jacobs, curadora da mostra, que trouxe para o podcast histórias enterradas por séculos, mulheres que se disfarçaram de homens para navegar, viúvas de armadores que comandaram batalhas navais, trabalhadoras portuárias que sustentaram famílias inteiras sem nenhum reconhecimento formal. O apoio logístico para as gravações veio da Associação Brasileira de Terminais e Recintos Alfandegados (Abtra).