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Hudson Carvalho

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As pedras que ninguém moverá por você

Uma reflexão sobre iniciativa, responsabilidade e as decisões que não podem esperar ajuda externa nas organizações

“Faça o que puder, com o que tiver, onde estiver.”

Theodore Roosevelt.

 

Algumas decisões são tão simples que ninguém quer tomá-las.

Corro o risco de ser mal interpretado ao começar dessa forma, mas sigo confiante de que você entenderá meu ponto.

Algumas das narrativas mais antigas da humanidade sobreviveram por um motivo simples: capturam comportamentos humanos que continuam atuais. Entre elas, estão duas passagens bastante conhecidas da Bíblia que, para mim, sempre provocaram reflexão.

A primeira é a Parábola dos Talentos. Um senhor, antes de viajar, confia diferentes quantias — chamadas talentos — a três servos. Dois deles investem e multiplicam o que receberam. O terceiro, com medo de perder, enterra o dinheiro e o devolve exatamente como recebeu. Ao retornar, o senhor reconhece os que agiram e censura o que preferiu a imobilidade. A lição é simples e atravessou séculos: oportunidades não produzem resultado algum quando são tratadas com temor.

A segunda passagem descreve a ressurreição de Lázaro. Diante do túmulo fechado por uma grande pedra, o comando dado foi que as pessoas presentes a removessem. Em seguida, o chamado foi feito para que Lázaro saísse.

Sempre achei curioso esse detalhe. Se havia poder para trazer alguém de volta à vida, mover uma pedra seria tarefa trivial. Ainda assim, o gesto inicial foi delegado a mãos humanas.

Há algo profundamente simbólico nisso.

A história sugere que certas ações pertencem à esfera da responsabilidade direta de quem está presente. Antes de qualquer acontecimento extraordinário, existe um movimento ordinário que precisa ser feito por alguém disposto a fazê-lo.

Essa ideia atravessa o cotidiano das organizações e das decisões de liderança.

Em ambientes corporativos complexos, tornou-se comum aguardar condições ideais antes de agir. Espera-se a validação completa do cenário, a confirmação de todas as premissas, o alinhamento de todas as áreas. A cautela, que em muitos momentos é prudente, acaba transformando-se em paralisia quando o excesso de análise substitui a disposição para agir.

Projetos aguardam decisões. Decisões aguardam consenso. Consensos aguardam novas análises. Nesse ciclo silencioso, iniciativas que poderiam ter avançado acabam soterradas por camadas de prudência institucional.

Organizações raramente param por falta de inteligência. Param quando ninguém decide mover a primeira pedra.

O curioso é que, na maior parte das vezes, o primeiro movimento não exige grandes recursos nem gestos heroicos. Exige apenas disposição para fazer aquilo que já está ao alcance das mãos.

Nas empresas, esse primeiro movimento costuma aparecer em formas bastante simples: uma conversa que precisa ser iniciada, uma decisão que pode ser tomada com as informações disponíveis, um experimento que pode começar pequeno, um projeto que pode sair do papel antes de estar perfeitamente acabado.

A diferença entre organizações que avançam e as que apenas planejam raramente está na quantidade de inteligência acumulada. Está na disposição de transformar intenção em ação, mesmo quando o cenário ainda não parece completamente resolvido.

A parábola lembra que o medo de errar pode produzir um erro maior: a renúncia à própria iniciativa.

O episódio do túmulo lembra que certas pedras não se moverão enquanto alguém não decidir empurrá-las.

Em estruturas organizacionais grandes, existe uma tentação permanente de acreditar que transformações virão sempre de cima, de fora ou de circunstâncias excepcionais. Espera-se a nova estratégia, o novo ciclo econômico, a nova política pública, a nova tecnologia que reorganizará tudo.

Essas forças, sem dúvida, existem e frequentemente alteram o ambiente competitivo. Ainda assim, antes que qualquer grande mudança se manifeste, permanece intacta a responsabilidade individual de agir dentro do espaço que cada um ocupa.

O progresso institucional costuma começar de maneira menos dramática do que se imagina. Começa quando alguém decide investir o talento recebido em vez de enterrá-lo, mover a pedra que está à sua frente, mesmo sem saber exatamente o que acontecerá depois.

Ao longo do tempo, organizações se transformam menos por grandes declarações estratégicas e mais pela soma silenciosa desses gestos.

Em um mundo corporativo que valoriza planejamento detalhado, essa sequência simples às vezes é esquecida. No entanto, grande parte da evolução das empresas continua dependendo de algo bastante elementar: pessoas que se dispõem a fazer aquilo que já está ao seu alcance.

As histórias antigas sobrevivem porque continuam dizendo algo sobre nós. Cada pessoa recebe algum tipo de responsabilidade. Em algum momento, haverá uma pedra diante de nós. A pergunta que fica é simples: qual pedra, hoje, está esperando que você a mova?

A primeira decisão sempre será a mesma.

Usar o que foi confiado. E mover o que pode ser movido.

Hudson Carvalho é consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, diretor regional da Wisdom – Gestão Organizacional (Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista (SP) e diretor executivo da Elabore-Online – Pessoas e Resultados.

Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras.

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