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Clara Laface

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Quando a imagem projetada não corresponde à realidade: o perigo de organizações que parecem mais do que são

Reproduzir boatos ou se alinhar ao caos compromete a credibilidade individual. Em momentos assim, equilíbrio e discernimento se tornam ativos valiosos. A crise passa. Mas a forma como cada um se comporta durante ela permanece como marca.

Quem já leu algum dos meus textos por aqui sabe que eu defendo que a nossa imagem vai muito além da roupa que vestimos. Os componentes da nossa camada aparente – características físicas, elementos visuais e gestuais – devem revelar harmonia com a nossa essência, personalidade e valores inegociáveis. É a base que dá sustentação à superfície. Quando nos deparamos com alguma crise reputacional, revela-se o descompasso entre o que emerge e a fragilidade do que sustenta.

Na ânsia – um eufemismo para não dizer ganância– por um crescimento acelerado, gestores lançam mão de metas agressivas para moldar uma percepção de arrojo, inovação e, assim, ganhar reconhecimento no curto prazo. Durante algum tempo, essa percepção se sustenta; porém, o olhar externo (mercado, órgãos fiscalizadores) se aproxima, a inconsistência aparece e, muitas vezes, gera uma crise de proporções estratosféricas. O que pode parecer apenas um deslize de ego inflado se torna um problema para a sociedade, prejudicando pessoas e colocando em xeque a confiança coletiva.

A crescente consciência sobre a importância da transparência, da governança e da responsabilidade precisa se refletir na forma como os processos empresariais são conduzidos e, sobretudo, nas consequências que surgem quando a única entrega, digamos, palpável, é uma imagem cuidadosamente arquitetada, baseada em moldes já conhecidos, mas que ainda conseguem enganar muita gente.

 

O custo de sustentar o insustentável

Seria clichê falar apenas do custo reputacional, pois este é o desfecho após uma série de outros custos para sustentar a mendacidade criada. Controlar a falsa narrativa consome energia emocional, física, operacional e estratégica. Quando atinge um ponto crítico, qualquer evento – interno ou externo – tem potencial para expor o desequilíbrio acumulado.

Como é de se esperar, quando esse desequilíbrio vem à tona, resulta na quebra imediata de credibilidade. O que antes era sinônimo de robustez e fortaleza se transforma em precariedade e afeta a relação com equipes, parceiros e clientes, que passam a adotar – com razão – uma postura defensiva.

Paradoxalmente, existe uma pressão para que os resultados artificiais sejam mantidos, comprometendo ainda mais a operação e afastando uma solução que seja melhor para todos, e não apenas para algumas partes interessadas. Sabe-se que o estrago será enorme, mas muitos optam, ainda assim, por tentar encontrar uma fórmula mágica em vez de consertar fazendo o correto. Não cabe aqui julgar essa motivação, mas ela varia do pavor de perder relevância no mercado à desfaçatez e imoralidade.

 

Como evitar o descompasso entre imagem e prática

Impedir que situações como essa aconteçam nas organizações atravessa a índole das lideranças. Ter princípios morais firmes e agir com responsabilidade social é o mínimo esperado. Mas há outros aspectos além das boas intenções.

O ponto de partida está na clareza. Ter entendimento sobre competências e limitações – tanto do gestor quanto da capacidade operacional da empresa – e, a partir disso, traçar um projeto em que os ajustes ao longo do processo sejam feitos de forma transparente para todos os stakeholders.

Outro aspecto é a coerência. O que se comunica precisa ser reflexo direto das decisões internas e das rotinas operacionais. Quando há divergência entre discurso e prática, essa inconsistência inevitavelmente se torna visível. Histórias infladas podem até gerar impacto momentâneo, mas não se sustentam no tempo.

A abertura para feedbacks qualificados também funciona como mecanismo de proteção. Muitas crises poderiam ser evitadas se sinais de alerta fossem ouvidos com antecedência. Quando se ouve algo que não estava nos planos, o melhor a fazer é deixar o orgulho de lado, ouvir com atenção, reconhecer os pontos coerentes e recalcular a rota antes que uma crise exploda.

 

A crise chegou na empresa que você atua. E agora?

Quando a crise chega — especialmente uma crise que atinge não somente a organização, mas a sociedade — a reação individual se torna determinante. A forma como cada profissional se posiciona nesses momentos influencia diretamente a percepção futura sobre sua competência, seriedade e capacidade de liderança.

O primeiro movimento é buscar entender do cenário. Decisões tomadas com base em rumores tendem a ampliar o problema, não a resolvê-lo. A comunicação também ganha um papel central: ser claro, objetivo e responsável evita ruídos e reduz a insegurança, principalmente quando há equipes envolvidas.

Manter o comportamento profissional é indispensável. Crises expõem as fragilidades organizacionais, mas também o nível de maturidade de cada pessoa. Registrar entregas e responsabilidades ajuda a preservar a própria reputação e evita interpretações equivocadas. Sustentar, se possível, o ritmo de trabalho demonstra firmeza em suas ações — um diferencial importante em ambientes instáveis.

Outro ponto é evitar a amplificação da tensão. Reproduzir boatos ou se alinhar ao caos compromete a credibilidade individual. Em momentos assim, equilíbrio e discernimento se tornam ativos valiosos. A crise passa. Mas a forma como cada um se comporta durante ela permanece como marca.

A queda de organizações evidencia que a maioria das crises que derrubam empresas e lideranças não começa em grandes escândalos. Começa em pequenas concessões, em histórias ajustadas para parecerem mais atraentes, em operações que fogem da transparência e na crença de que esses movimentos passarão despercebidos. O problema é que quando deixam de passar, tudo se torna público de uma vez.

Confiança é o eixo que sustenta reputação e futuro profissional. Robert Greene sintetiza isso na Lei 5 de As 48 Leis do Poder: “Muito depende da reputação — defenda-a com a própria vida”. E essa defesa deve ter lastro fincado na moralidade, não apenas na boa condução de arquétipos para iludir o outro.

Clara Laface escreve para o BE News semanalmente, com seus artigos publicados sempre às terças-feiras.

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