O perigo de vestir um personagem: o que “O Diabo Veste Prada” revela sobre imagem e poder nas empresas
Entre o imaginário coletivo e a construção da presença real, está o maior erro de posicionamento profissional
O retorno do interesse por O Diabo Veste Prada reacende uma discussão que vai muito além da estética ou da indústria da moda. O filme expõe, com precisão desconfortável, um comportamento amplamente reproduzido no ambiente corporativo: a construção de personagens como estratégia de pertencimento e ascensão.
Em um cenário onde a imagem se tornou um ativo estratégico, muitos profissionais acreditam que precisam se moldar a um padrão para serem reconhecidos. Adaptam a forma de se vestir, de se comunicar e até de se comportar, guiados por um modelo invisível do que é “ter sucesso”. E o problema não está na adaptação, mas na perda de identidade ao longo desse processo.
E, embora muitas vezes essa adaptação pareça necessária, ela pode ser também o início de uma desconexão silenciosa, entre identidade, comportamento e imagem. No ambiente profissional, essa ruptura raramente é percebida de forma imediata, muito pelo contrário, ela costuma ser validada.
O imaginário coletivo e a construção do “perfil ideal”
Ao longo da história, aprendemos a reconhecer padrões. Narrativas são repetidas, reforçadas e, com o tempo, passam a ser aceitas como verdade.
O historiador Peter Burke, ao abordar o conceito de “nova história”, nos mostra que aquilo que entendemos como realidade é, muitas vezes, apenas a versão que foi mais repetida, mais difundida e mais legitimada. Esse mesmo mecanismo opera dentro das empresas.
No livro O Cérebro e a Moda, essa relação entre percepção, comportamento e construção simbólica da imagem é explorada a partir da forma como o cérebro interpreta estímulos visuais e sociais. Ou seja, não vemos apenas o que está diante de nós, mas aquilo que fomos condicionados a reconhecer. É justamente por isso que o imaginário coletivo exerce tanta força.
Existe um imaginário coletivo sobre o que é ser uma profissional de sucesso: alguém austera, impositiva, emocionalmente contida, muitas vezes associada a uma estética mais rígida e até masculinizada. O Diabo Veste Prada traduz esse arquétipo com clareza. E o problema não está na existência desse modelo, mas na forma como ele é absorvido sem questionamento.
Entrar em um novo ambiente exige leitura de contexto pois existe, sim, um código, uma liturgia do cargo. Mas quando a adaptação deixa de ser estratégica e passa a ser uma tentativa de encaixe, nasce o risco.
Profissionais começam a reproduzir comportamentos que não são seus, a sustentar posturas que não refletem sua essência e a comunicar uma imagem desalinhada daquilo que, de fato, são capazes de entregar. Esse é o ponto em que a imagem deixa de ser ferramenta e passa a ser um personagem, e personagens exigem manutenção.
O ciclo silencioso de reprodução de poder
Um dos trechos mais simbólicos do filme é a dinâmica entre liderança e assistente. A lógica é clara: você entra, se submete, aprende sob pressão, naturaliza excessos e, quando ascende, corre o risco de reproduzir exatamente o mesmo comportamento.
Esse ciclo revela algo importante: a imagem de autoridade que foi construída no imaginário coletivo está diretamente associada à manutenção de poder e não necessariamente à competência ou à inteligência emocional. E é assim que ambientes profissionais passam a legitimar comportamentos tóxicos sob o argumento de performance.
Estudos conduzidos por Amy Cuddy demonstram que a primeira impressão é formada em segundos e está diretamente ligada à percepção de confiança e competência. Ou seja, antes de qualquer entrega técnica, a sua imagem já está comunicando e sendo interpretada e é nesse ponto que mora o risco. Quando a referência que guia essa construção vem de um imaginário limitado, passamos a projetar autoridade baseada em rigidez, distanciamento e controle e não em coerência, clareza e presença real.
A nova lógica da presença: coerência como ativo
Sustentar uma imagem que não corresponde à sua identidade cobra um preço. No curto prazo, pode até gerar reconhecimento, mas no longo prazo, gera desgaste. Insegurança, exaustão, dificuldade de conexão com equipes, relações superficiais e, muitas vezes, a sensação constante de estar desempenhando um papel. Porque, no fundo, permanece a dúvida: “Essa imagem que estou projetando sustenta quem eu sou ou apenas o que esperam de mim?”
Se antes o poder estava associado à rigidez, hoje ele está cada vez mais ligado à coerência. Ambientes corporativos mais maduros já compreenderam que competência técnica, sozinha, não sustenta liderança.
Empatia, clareza na comunicação, inteligência emocional e consistência comportamental passaram a ser diferenciais competitivos e isso muda completamente a forma como a imagem deve ser construída. Não se trata apenas de parecer, mas de alinhar. Alinhar aparência, comportamento e comunicação com a sua identidade e com o contexto em que você está inserida.
Imagem não é personagem. É posicionamento
Hoje, a construção de uma imagem profissional eficaz passa por um novo critério: coerência.
A autoridade deixou de estar associada exclusivamente à estética rígida e passou a ser sustentada pelo alinhamento entre aparência, comportamento e comunicação. Profissionais que conseguem traduzir sua identidade com clareza e consistência tendem a gerar mais confiança, mais respeito e, consequentemente, mais resultados.
Isso não significa ignorar o contexto corporativo, mas interpretá-lo com inteligência. A imagem, quando bem construída, não aprisiona, ela potencializa.
A principal reflexão que fica é simples: você não precisa se transformar em alguém que não é para ocupar espaços de poder. Precisa, sim, desenvolver consciência sobre como sua imagem comunica, quais mensagens você reforça e se existe coerência entre o que você entrega e o que você projeta.
Porque, no final, não é sobre vestir o personagem certo, mas sobre construir uma imagem que sustente, com consistência, quem você realmente é.
Fabiolla de Paula escreve para o BE News semanalmente, às sextas-feiras.