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Jornal BE News - Edição de Hoje

Estilo BE

Velhice está na moda

Atualizado em: 2 de May de 2026 às 7:44
Leopoldo Figueiredo Enviar e-mail para o Autor

Esta edição do Estilo BE é bem especial. A começar pela escolha da personalidade a ser entrevistada. Pela primeira vez desde a estreia da coluna, que abrilhanta as páginas do BE News desde o lançamento do jornal há mais de quatro anos, em 17 de fevereiro de 2022, a “dona” deste espaço, a jornalista Ivani Cardoso, deixa o papel de entrevistadora para ser o alvo das perguntas. O motivo não poderia ser mais justo: nesta segunda-feira, em Santos (SP), Ivani lança um livro reunindo reflexões sobre um dos temas que mais estuda, o envelhecimento. Trata-se de Velho, eu? A vida como ela é (ou deve ser), da Editora Reformatório. 

A obra traz uma seleção dos textos que produziu para a coluna que teve no Jornal da Orla (veículo regional de Santos) no ano passado, voltada para a análise do envelhecer e que teve o mesmo nome “Velho, eu?”. Ivani analisa essa questão há mais de 15 anos, fazendo parte de um grupo multiprofissional chamado Ideac, em São Paulo (SP). E explica que “escrever sobre o que aprendo, as minhas experiências e as de pessoas com quem convivo pode ser uma forma de levar outros olhares para um tema que é temido e evitado”. Uma interessante proposta que resultou em análises instigantes e muito envolventes, bem no estilo da nossa colunista, dona de um dos melhores textos que já li (como bem sabem os leitores do Estilo BE). 

Para os que desejarem adquirir o livro e estiverem em Santos ou pela região, basta ir no seu lançamento nessa segunda-feira, às 18h30, no Bar Heinz (Rua Lincoln Feliciano, no bairro Boqueirão). Também é possível encomendá-lo no site da editora (https://www.reformatorio.com.br/), na Amazon, na Livraria Martins Fontes (Santos) e na Livraria da Vila (São Paulo). Ele custa R$ 58,00.
Confira agora a entrevista com Ivani Cardoso, na qual ela reflete sobre o que é envelhecer no Brasil de 2026, os desafios e as dádivas desse processo e, especialmente, o melhor caminho e os erros a se evitar para chegar bem na plena idade.

Ivani, seu livro Velho, eu?, que será lançado nesta segunda-feira, em Santos (SP), começa com uma provocação logo no título, referindo-se ao comentário tradicional das pessoas, que usualmente não gostam de ser consideradas “velhas”. E isso diz muito da sociedade em que vivemos. Para você, envelhecer é algo tão negativo assim?

Pelo contrário, eu acredito que você pode buscar um envelhecer com mais leveza e qualidade de vida. O título é uma provocação porque as pessoas não gostam da palavra e muito menos de admitir que estão velhas. A velhice é mais uma fase, como outra da vida, que pode ser melhor ou pior. Não há uma velhice igual a outra. O importante é encontrar propósitos, manter bons relacionamentos sociais e familiares, cuidar da saúde, resgatar sonhos e tirar o preconceito de dentro de você. Ser velho não é escolha, ser um velho chato, intolerante, solitário e rabugento é uma opção.

Dos artigos que integram o livro, qual o que você mais gostou de escrever? Qual o que mais te realizou enquanto jornalista e escritora? E por quê?

Gosto do texto em que eu cito vários tipos de velhos, acho que dá uma sacudida nas pessoas. 

E qual o texto que mais teve repercussão? Como foi?

O que teve maior repercussão foi um em que falo das minhas dificuldades com botões, com certas tecnologias, muita gente se identificou.

O que é ser “velho” no Brasil de 2026? 

O Brasil é um país que está envelhecendo. Entre os anos de 2012 a 2025, o número de idosos no Brasil aumentou, subindo de 11,3% para 16,6% no mesmo recorte temporal, enquanto no mesmo tempo, a população jovem brasileira, que representa pessoas com menos de 30 anos de idade, caiu de 49,9% para 41,4%. Ser velho no Brasil é enfrentar, ainda, muitos desafios na questão da saúde, na oferta de emprego e de cultura e lazer. A geração de jovens na faixa dos 40/50 vem se preparando melhor para o envelhecer, inclusive na questão financeira.

O que é envelhecer?

Envelhecer é um processo natural e universal, embora não seja encarado assim. Para mim é respeitar os limites que a passagem do tempo traz, é continuar com uma vida ativa, é tentar lidar com sabedoria com as limitações da idade e continuar agradecendo diariamente por ainda estar aqui.

Um dos maiores desafios da população na terceira idade é se manter ou se reinserir no mercado de trabalho. Com as novas tecnologias e essa parcela da população cada vez mais participando da sociedade, o mercado de trabalho está mais inclusivo? 

Hoje há mais oportunidades para quem passou dos 60, principalmente na área de consultoria e empreendedorismo, e há organizações voltadas para dar oportunidades para esse perfil de público. Mesmo com a abertura de vagas em várias empresas, a maioria ainda tem muitas restrições em contratar pessoas velhas, o etarismo é forte e bons e experientes profissionais sofrem para conseguir uma colocação. A troca entre jovens e velhos em uma empresa pode ser rica e trazer excelentes resultados. Uma excelente opção, embora não remunerada, é o trabalho voluntário, é um bom momento para devolver o que recebemos.

⁠Como envelhecer e continuar trabalhando?

O importante é continuar aprendendo, não dá para ficar apegado aos velhos métodos. Hoje em dia, há muitos cursos online para se atualizar e até para buscar novas habilidades. Aprender não tem idade, e aí entra também a tecnologia, que é essencial em qualquer profissão.

⁠Muitos que estão na terceira idade passam, hoje, por uma experiência única, cuidar de seus pais e de seus netos. Isso mostra que ser “velho” neste início de século é bem singular. Para você, é mais um fardo ou uma dádiva?

Uma boa velhice nem sempre é uma escolha. A vida traz surpresas. Pessoas que acreditavam que estariam mais livres depois da aposentadoria se veem com filhos que voltam para casa, com netos para cuidar, com outros familiares mais velhos e dependentes. Envelhecer com saúde, autonomia e com uma boa condição financeira é uma dádiva, sempre.

Em alguns textos, você abordou como a arte apresenta a velhice. Esse retrato é fiel? Ou romantiza-se muito?

Velhice está na moda, há muito livros, filmes, peças de teatro retratando em drama ou comédia esse tempo. No livro, dou dicas de filmes e livros. Acredito que a arte abre janelas para novas reflexões e oportunidades para o autoconhecimento e para a liberdade de ser quem você é.

⁠Sobre relacionamentos, a paixão muda na terceira idade?

A paixão muda em várias fases da vida. Antes, as pessoas se casavam para viver 30, 40, 50 anos. Hoje, esse tempo está ampliado, há muitas mudanças acontecendo nos relacionamentos. Os homens morrem mais cedo, geralmente envelhecem acomodados, enquanto as mulheres aprenderam que podem sair sozinhas e resgatar sonhos, elas vão mais à luta. O tal “é melhor viver junto, mesmo em um péssimo casamento” não funciona mais como antes.

Para você, o que é envelhecer bem? E como conseguir isso? Como devemos nos preparar para essa fase da vida?

Envelhecer bem é não ter medo de envelhecer, é aceitar as mudanças com sabedoria, é driblar as dores, é cuidar do corpo e da mente, é respeitar o que de fato é prioridade para você no tempo que tem pela frente. Como diz o médico Alexandre Kalache, especialista no tema, só quem envelhece tem oportunidade de acertar as contas e abandonar as mágoas. Não é um grande motivo para olhar essa fase com mais suavidade e sem tantas cobranças por performances e aparência física?

⁠O humorista e escritor Chico Anysio falava que “envelhecer é uma m…, mas a alternativa é bem pior”. O bom humor é essencial em qualquer fase da vida. Mas ele fica mais importante na velhice? 

Bom humor é uma ferramenta poderosa no envelhecer. Gente chata e mal-humorada, ninguém quer por perto. Quando você aprende a rir até de suas bobagens deixa a alma mais leve. Bom humor deve fazer parte de qualquer manual de sedução da velhice.

Diante da experiência de debater a velhice em sua coluna, qual o maior erro de quem chega na terceira idade? E qual o maior acerto?

O maior erro é perder a esperança e se isolar. O maior acerto é aceitar e gostar do velho que você é e tentar fazer o melhor para continuar com uma vida ativa, com projetos, com bons relacionamentos familiares e de amizade, que são o maior segredo para uma velhice mais feliz.

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