Brasil Export
Governo monitora alta do QAV e efeitos sobre tarifas e voos
Diretora aponta repasse ao consumidor, redução de oferta e fragilidade financeira das aéreas, enquanto medidas tentam conter impacto do combustível
A diretora de Planejamento e Fomento do Ministério de Portos e Aeroportos, Júlia Lopes da Silva Nascimento, prevê que o aumento nos preços do QAV (querosene de aviação) deve continuar nos próximos meses. A declaração da representante do governo ocorreu nesta terça-feira (4), durante reunião do Conselho de Minas e Energia do Brasil Export.
Segundo a diretora, o governo tem sentido os impactos das altas de preços do QAV e acompanhado o cenário com preocupação. A variação já tem gerado altas nos preços do ticket das passagens aéreas.
A representante do Ministério de Portos e Aeroportos também detalhou aumentos do QAV, só neste ano, houve alta de 10%, em março, e, em abril, de 54%. “Esse aumento nunca foi antes visto. O maior aumento que tivemos antes foi de 19% em 2022”, explicou.
Conforme ela, o ministério faz monitoramento mensal dos preços dos tickets e o consumidor final já sente o aumento. Entre março do ano passado e março deste ano, houve uma variação de 17%. “É um mercado muito sensível a essa alta de preços, quando a gente percebe esse repasse ao consumidor final”, disse.
Lopes também afirma que, dos voos planejados para maio, 2,5 mil foram reduzidos pelas empresas aéreas.
A reunião do Conselho de Minas e Energia do Brasil Export teve a presença de autoridades e representantes do setor de aviação e debateu o aumento de preços do QAV. O encontro ocorreu na Casa Brasil Export, em Brasília.
O CEO do Grupo Brasil Export, Fabrício Julião, fez a abertura do evento. Ele ressaltou a importância do encontro e a necessidade de juntar diferentes autoridades e lideranças empresariais para discutir o setor de minas e energia.
Além do aumento dos preços, os debates trataram da situação financeira das empresas, das medidas de resposta dos governos e do impacto, em cenário mundial e local, da guerra no Oriente Médio.
Em sua palestra, Júlia Lopes ainda frisou que esse mercado é muito sensível a essa alta de preços. De mesmo modo, as companhias têm apenas duas formas de lidar com essa variação: aumento das tarifas ou a redução dos voos. “Se essa crise se agravar, vamos ver trechos sem atendimento, como o Norte, a Amazônia Legal”.
Conforme a diretora, a situação financeira das três maiores companhias aéreas também não é das melhores. Sendo que apenas uma delas teve patrimônio líquido positivo no último ano.
Nesse cenário, ela explicou que o governo tem tomado medidas, apesar de limitadas, para dar fluxo ao setor. Entre elas, estão a isenção de PIS/Cofins nos meses de abril e maio e a postergação de tarifas de junho, julho e agosto para dezembro.
Além disso, ressaltou que o governo tem preparado linhas emergenciais para financiamento de combustíveis, já que esse gasto equivale a cerca de 30 a 40% dos custos das empresas. São duas linhas, uma com aporte de R$ 8 bilhões, que será oferecida pelo BNDES, e outra de R$ 1 bilhão, oferecida pelo Banco do Brasil.
“São tentativas do governo de mitigar esse aumento bastante drástico que estamos vivenciando”, completou. Ela também citou que, embora o QAV seja produzido 90% pelo Brasil, o valor é precificado pelo mercado internacional.
Segundo a diretora, até o final do ano que vem, o governo espera já ter o modelo de eVTOL, aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical, conhecida como “carro voador”.
Preços altos e judicialização
Juliano Noman, presidente da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), destacou que, além dos preços, as companhias aéreas sofrem com grande volume de judicialização. Ele também disse que os processos contra as empresas viraram um negócio no meio jurídico.
“O nosso desafio é garantir o direito do passageiro e coibir a produção de uma indústria”, frisou Noman. Sobre a crise do QAV, o presidente da Abear elencou ser necessário o país definir enquanto meta se o transporte será apenas para as classes mais ricas ou democratizar o acesso a todos.
Como uma alternativa em meio à variação dos preços de combustíveis, Claudia Machado Jannuzzi, assessora especial da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado do Rio de Janeiro, destacou que a implementação de uma transição energética de forma rápida impõe mudanças radicais no sistema de energia.
Ela defendeu um sistema de soma na produção energética. “Em vez de falar em transição, poderíamos nos referir à adição energética, pois a transição implica em mudanças radicais. Estamos, na realidade, adicionando novas fontes energéticas, num processo em constante evolução. O Rio de Janeiro está engajado nesse caminho de transição e adição energética”.
Ao final do encontro, o CEO do Grupo Brasil Export fez um convite para os próximos encontros e ressaltou os resultados que têm gerado, como no caso do fórum Nordeste Export. “Essa dinâmica se transformou, e os portos passaram a colaborar e a adotar uma visão regional integrada”, afirmou Fabrício Julião.