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Mulher plural e guerreira

Quem olha para a carioca Carla Prata vê uma mulher linda, determinada e inteligente, mas essa primeira impressão passa longe da realidade de tantas batalhas que ela já enfrentou. É até difícil definir quem ela é, pela trajetória múltipla. Já foi professora de Matemática, bailarina do Faustão, a primeira apresentadora do programa, rainha de bateria do Acadêmicos do Tucuruvi há cinco anos e influencer com quase 700 mil seguidores. Em sua rede social, defende bandeiras como alimentação natural, a proteção das mulheres que sofrem violência e ainda batalha pelas pessoas que têm doenças raras, como ela. “Acho que sou uma mulher plural”, afirma.
Há oito anos deixou o Rio por São Paulo e nunca se arrependeu. “Eu amo São Paulo, quando vou para o Rio acabado antecipando minha volta”. Além de facilitar o network, ela diz que cidadeampliou a visão para os negócios e trouxe para sua vida uma pessoa especial: a doutora Michele Haikal, especialista em doenças autoimunes e medicina integrativa, que amenizou o sofrimento e tantas internações por miastenia gravis, uma doença que não tem cura e que afeta a comunicação entre os nervos e os músculos,produzindo episódios de fraqueza muscular.
Pela firmeza e conhecimento sobre doenças raras, Carla já foi convidada para entrar na política e está pensando se realmente poderia contribuir para ampliar o foco nesse tema, ainda tão desconhecido. “As pessoas não imaginam como é ficar sem andar, sem abrir um olho, com dificuldade para respirar. Tenho que conviver com o inesperado. Posso estar bem pela manhã e, à noite, não poder sair, mas tudo foi aprendizado”, conta.
Coragem e foco para superar problemas de saúde ela tem de sobra. Um tumor de 18 centímetros e meio grudado no coração e no pulmão provocou a retirada da pleura, muitas fisioterapias respiratórias e um longo tratamento.
No início, Carla se revoltou e não entendia por que tudo isso acontecia com ela. “Eu perguntava para Deus por que logo comigo, que não fazia mal a uma formiga? Hoje entendo que nada foi por acaso, eu fui aprendendo a me comunicar para que pudesse ajudar as pessoas. A comunicação está em mim desde que era professora de Matemática e dava aula particular para conseguir pagar a faculdade. Graças a Deus eu me considero um milagre né? Quando os médicos viam meus exames não entendiam como eu ainda estava andando e falando. Por isso tento dar apoio amuita gente nas redes sociais, converso, esclareço. A mente é poderosa e devemos usar a nosso favor.Acho que esse é o propósito maior na minha vida.”
Ela se considera uma guerreira por continuar buscando seus sonhos, mesmo com as limitações da doença: “Meu hobby é ser rainha de bateria, tudo que eu não poderia fazer, mas eu aprendi a lidar com altos e baixos e a me cuidar. As pessoas olham para mim e, às vezes, sinto até um preconceito quando dizem que eu sou tão bonita que nem pareço estar com um problema tão sério. Quem está de fora não entende como é o funcionamento de uma doença rara, a nossa deficiência não é visível. Por isso faço questão de dar muitas informações, como o benefício que temos direito como uma pessoa deficiente. Agora eu luto para que as pessoas com doença rara tenham voz.”
As limitações são grandes. Quem tem miastenia gravis não deve se expor ao sol ou fazer atividade física intensa. “Até a menstruação afeta o meu organismo, preciso sempre tomar muitos cuidados. Eu faço musculação, mas respeito meus limites. Dois dias antes do desfile de Carnaval fico repousando, não faço nada para estar bem no dia.”
Carla comenta que nem o Ministério da Saúde tem os números corretos de pacientes com doença rara no Brasil. “No mundo são mais de 8 mil doenças raras catalogadas e nem sabemos quais são as que afetam mais os brasileiros. Com essa informação seria possível investir em pesquisas, mapear os casos, trazer medicamentos de última geração. Há muito desconhecimento e há muito por fazer.”
Carla também defende em suas redes sociais as mulheres vítimas de violência: “Eu fico com muita raiva do que vejo acontecendo. Os homens praticam violência e matam, sabendo que não vai acontecer nada com eles. Essa maldade sempre existiu, mas agora estourou. Ainda não conseguimos mudar o que é preciso, infelizmente a nossa voz ainda é minoria. Mas eu sinto que as mulheres estão falando mais sobre isso, estão tentando se proteger e vencer o medo. Quantas mulheres mais precisam morrer para se ter direito à vida?”
Entre seus planos está a realização de palestras na área corporativa para colocar luz sobre essas questões que defende. “Conscientizar é preciso e as empresas podem ajudar. Tenho projetos sociais para ajudar mulheres que foram vítimas de abusos. O grande problema é que os criminosos ignoram as medidas protetivas, não há um acompanhamento mais sério, é tudo demorado. Sou a favor de leis mais rígidas nesses casos de violência. Nem nos meus piores pesadelos eu imaginaria o que estou acompanhando, é muita crueldade. Eu já passei por isso e graças a Deus consegui sair da situação, mas quantas mulheres não conseguem? Elas são invisíveis.”
Esse ano ela se forma em Nutrição e os projetosnão param. Em breve vai lançar um produto de alimentação antinflamatória. “Alimentação é a base para a doença autoimune, para as pessoas que querem emagrecer o que têm lipedema, como eu tenho. Por isso desejo trabalhar na área de saúde e prevenção. Comecei a estudar Nutrição por conta da minha doença e sei que posso contribuir com quem passa pelo que eu passo.”
O filho Cauê, 20 anos, é sua grande força: “A maternidade mudou tudo, nosso relacionamento é ótimo, ele me entende, é um grande parceiro. Com ele aprendi a ter resiliência e coragem para enfrentar os desafios.”
Atualmente Carla está solteira e não tem pressa para entrar em um novo relacionamento. Há muito trabalho e sonhos pela frente, como conhecer a Aurora Boreal e Zanzibar. A prioridade, porém, é bem mais ampla: “O que eu quero mesmo é o respeito para as mulheres e para quem tem doença rara. Vou continuar lutando”.