Agronegócio
Setor cafeeiro teme impacto climático sobre próximas safras
Painéis de seminário do café discutem estoques apertados, risco de El Niño severo e instabilidade no mercado internacional
A situação dos estoques mundiais de café, a volatilidade do mercado internacional e os impactos climáticos sobre as próximas safras dominaram os debates do painel “Supply & Demand”, realizado nesta quinta-feira (21), no encerramento do XXV Seminário Internacional do Café, no Santos Convention Center. A atividade reuniu especialistas do setor para discutir o equilíbrio global entre oferta e demanda em um cenário marcado por eventos climáticos extremos, gargalos logísticos e instabilidade geopolítica.
O painel foi mediado pelo diretor-comercial da EISA – Interagricola SA e vice-presidente da Associação Comercial de Santos, Carlos Santana. Durante a discussão, o presidente de divisão Financeira e da América Latina da StoneX, Oscar Schaps, afirmou que o mercado cafeeiro atravessa um período de elevada sensibilidade.
“O café é uma das commodities mais voláteis do mundo. Tivemos redução dos estoques globais, além de problemas climáticos, guerra impactando fretes e um ambiente extremamente sensível”, declarou.
O analista de pesquisa no mercado de café do Rabobank Brasil, Cláudio Delposte, afirmou que o setor ainda depende de grandes safras para recompor os estoques mundiais e devolver maior estabilidade ao mercado.
“Vamos precisar de outra safra volumosa para dar fôlego ao mercado”, disse.
Segundo Delposte, o comportamento climático durante a próxima florada brasileira será determinante para o equilíbrio global entre oferta e demanda e para a trajetória dos preços internacionais.
El Niño
As preocupações relacionadas ao clima também dominaram o painel “Traders”, que reuniu alguns dos principais nomes globais do setor cafeeiro. Os participantes demonstraram preocupação com os efeitos de um possível novo ciclo severo do El Niño sobre a produção de café, especialmente do tipo robusta.
O painel foi mediado pelo head de café no Brasil da COFCO International, Octávio Pires, e contou com a participação do diretor-regional da ECOM Agroindustrial, Alejandro Flórez, do head de café na Europa da Comexim Group, Alex Park, e do CEO da Volcafé Brasil, Danilo Pucci.
Segundo os painelistas, as previsões climáticas indicam a possibilidade de retorno do El Niño em intensidade moderada ou severa nos próximos meses, o que pode provocar impactos relevantes nas próximas safras.
“As previsões já indicam possibilidade de um El Niño moderado ou severo nos próximos meses. Em um cenário mais forte, o impacto sobre o robusta pode ser significativamente maior”, afirmou Pucci.
Ele destacou que regiões produtoras como Espírito Santo, Bahia e países asiáticos, entre eles a Indonésia, podem sofrer perdas importantes caso os efeitos climáticos se intensifiquem.
Alex Park afirmou que os eventos meteorológicos extremos passaram a integrar permanentemente o ambiente global do café. “Esses ciclos serão mais predominantes e mais severos. O clima continua sendo a principal preocupação”, disse.
Além do clima, os traders discutiram desafios estruturais para os próximos anos, como renovação tecnológica das lavouras, expansão de áreas plantadas e sucessão familiar nas propriedades produtoras.
Segundo Alejandro Flórez, muitos países já enfrentam dificuldades para atrair novas gerações para o campo, cenário que tende a pressionar o equilíbrio da oferta global no médio prazo.
Durante os debates, os especialistas também avaliaram que o mercado deverá seguir marcado por forte volatilidade, influenciada por fatores climáticos, geopolíticos, oscilações cambiais, juros globais e gargalos logísticos.