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Vírus Ebola e os riscos para o Brasil

Atualizado em: 23 de May de 2026 às 20:39
Ivani Cardoso Enviar e-mail para o Autor

Divulgação

Confira entrevista exclusiva com o infectologista Jean Gorinchteyn sobre o tema

O vírus Ebola nunca chegou ao Brasil, mas agora ele voltou ao noticiário depois que a Organização Mundial de Saúde declarou um surto de emergência de saúde pública de preocupação internacional no dia 17 deste mês, na República Democrática do Conto e Uganda. Para falar sobre o tema que sempre preocupa, fizemos uma entrevista exclusiva com o infectologista Jean Gorinchteyn, secretário de Saúde de São Bernardo do Campos, ex-secretário de Saúde do Estado de São Paulo, médico do Einstein Hospital Israelita e mestre em doenças infecciosas. Até ontem foram 134 mortes e mais de 640 casos suspeitos nos dois países africanos, sendo que ainda não há vacina ou tratamento aprovado.

Confira:

O que representa uma emergência de saúde pública de importância internacional? É para assustar?

Não, de forma alguma. É uma forma para que de conjunta todos os países tomem medidas no sentido de dar atenção a eventual caso que possa ocorrer oriundos destas áreas que vivem a ocorrência de surtos do Ebola.

E quais as chances desse surto chegar ao Brasil?

Existe sempre a chance, afinal nós vivemos num mundo globalizado. Esse mundo globalizado facilita que pessoas eventualmente infectadas possam se deslocar para outros lugares. Por isso, essas medidas tomadas de cunho internacional são importantes e impedem pacientes sintomáticos saiam através de portos e aeroportos dessas áreas e se desloquem para outros países. Portanto, pacientes que tenham sintomas febris devem ser impedidos de sair dessas regiões e são mantidos em isolamento. 

O risco é maior pelo mar ou pelo ar?

Na verdade, o risco acaba sendo muito maior pelo ar. Nós temos curtas distâncias em um período muito curto pela parte aérea e claramente fazendo então com que as pessoas facilmente viajassem com sintomas. Para evitar isso, os serviços de vigilância feitos em aeroportos são bastante eficazes no sentido de impedir a saída de qualquer pessoa oriunda das regiões onde há surtos. Lembro que a partir do momento que, por alguma falha nesse sistema, ocorre a saída de pessoas daquele local, claramente medidas são instituídas para entender quais foram as pessoas que tiveram contato próximo a esses pacientes, seja num voo ou seja no próprio navio, inclusive isolando aquelas pessoas que tiverem contato próximo. 

Nós já tivemos o Ebola no Brasil?

Nunca tivemos, mas é importante lembrar que mesmo o Ebola sendo um vírus de transmissão interpessoal, pode infectar pessoas que estiveram dividindo a mesma mesa, o mesmo quarto, o mesmo acento de um avião. Nesse caso, basta isolar quem estiver lado a lado ou em bancos da frente ou bancos de trás de uma aeronave. Não é preciso colocar todos os passageiros em isolamento para garantir proteção.

É preciso voltar a usar máscara no avião, por exemplo, neste momento?

A preocupação para máscaras não está relacionada ao próprio Ebola até porque todos os cuidados têm sido estabelecidos, mas sim por outros vírus de transmissão interpessoal e respiratória como COVID gripe, entre outros. 

As autoridades de saúde no Brasil já estão tomando as medidas necessárias?

Toda vez que a Organização Mundial de Saúde faz essa sinalização, todas as comissões de vigilância do país são acionadas. Se por acaso, aeronaves que chegam no nosso meio trouxerem eventualmente alguém sintomático principalmente de áreas em que nós temos esses surtos, esses pacientes são imediatamente encaminhados para hospitais de referência. Aqui em São Paulo o Instituto de Infectologia Emílio Ribas é o hospital elencado com todos os cuidados que são estabelecidos, inclusive com operações que foram feitas no sentido de preparo das equipes em conjunto e do grupo de resgate que traz esses pacientes de uma forma muito bem acondicionada, bem como todos aqueles profissionais que estiveram no entorno usando roupas e equipamentos de proteção individual que garantam a preservação da saúde. 

Esse vírus é mais mortal?

Essa nova variante tem infectividade maior no sentido de transmissão de pessoa a pessoa, a nova cepa tem uma gravidade maior e o número de casos tende a evoluir de forma mais desfavorável, portanto com grande risco de morte. 

O fato de ter aparecido casos em Uganda, que é uma capital, é um complicador para expansão do vírus?

Não, porque seguramente essas pessoas tiveram a sua saída daquelas regiões do Congo por via terrestre. E aí não passaram pelo crivo de autoridades sanitárias – diferente do que nós vimos em portos e aeroportos – sem a efetiva proteção pelas vigilâncias locais. Por essa fragilidade o continente merece uma atenção maior, pelos próprios gestores.

Pela sua experiência o surto tende a aumentar ou a reduzir?

É pequeno o risco de se tornar uma emergência pandêmica mundial frente a todas as tratativas que vem sendo feitas, tanto na origem na saída de portos e aeroportos, bem como na chegada de eventual paciente sintomático dessas áreas. Por isso são essenciais as medidas de isolamento para os pacientes sintomáticos e a quarentena para os que não tiverem sintomas, mas estiveram em contato com esses pacientes. 

Os portos e as empresas do setor precisam tomar alguns cuidados adicionais?

Sim, sem dúvida alguma, principalmente aquelas empresas que atuam nessa rota da região da África. É preciso identificar pessoas com manifestações febris e dores no corpo, que devem ser deslocadas para unidades de saúde para ficarem em isolamento.

A tendência é o vírus se manter nessas regiões daqui para a frente?

Nós vimos nos últimos anos que o Ebola vem se mantendo endêmico no Congo, Serra Leoa e eventualmente até na região de Uganda, como temos visto agora. Isso mostra claramente que ele vem se mantendo circunscrito naquela região. Então é importante que o mundo esteja sempre em atenção para esse alerta da Organização Mundial de Saúde, que garante as práticas de identificação muito mais precocemente, evitando que o vírus se alastre por outros continentes, que não apenas a África. 

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