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Aviação

Crise do querosene leva ao corte de mais de 6 mil voos no Brasil

1 de June de 2026 às 17:08
Vanessa Pimentel Enviar e-mail para o Autor

Companhias têm cortado rotas menos rentáveis após combustível dobrar de preço em menos de três meses

A disparada no preço do querosene de aviação (QAV), impulsionada pelos conflitos no Oriente Médio, provocou um forte enxugamento da malha aérea no Brasil. Levantamento da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) aponta o cancelamento de mais de 6,2 mil voos entre maio e junho, na comparação com a programação do fim de fevereiro, antes da escalada internacional do petróleo.

Somente em maio, foram retirados 3.596 voos da malha aérea nacional. Para junho, estão previstos mais 2.675 cortes, totalizando ao menos 6.271 operações suspensas em um período de dois meses.

O principal fator por trás da redução é o aumento expressivo do custo do combustível, que pode representar até 45% das despesas operacionais das companhias aéreas. Diante da alta abrupta, as empresas enfrentam dificuldades para repassar integralmente o impacto às tarifas sem comprometer a demanda. Como consequência, optam por reduzir frequências e eliminar rotas menos rentáveis.

A retração atinge praticamente todo o país, com destaque para Pernambuco, que lidera em termos proporcionais. O estado registrou queda de 12,8% na oferta de voos em maio, equivalente a 427 operações a menos, e deve repetir um recuo elevado em junho, de 11,6%, com mais 378 voos cancelados.

Outros estados também registraram reduções significativas. A Bahia teve retração de 10,1% em maio, Goiás perdeu 9,6% da programação, enquanto Espírito Santo e Rio de Janeiro apresentaram quedas de 9%. No caso fluminense, foram 514 voos a menos apenas em maio.

Em números absolutos, São Paulo lidera as perdas, com 844 voos retirados da malha aérea em maio. O Rio de Janeiro aparece na sequência, seguido por Pernambuco, Bahia e Distrito Federal. Juntos, São Paulo e Rio somam mais de 1.350 voos cancelados em apenas um mês.

Entre as companhias, a Gol foi a que mais reduziu operações, com 1.840 voos a menos em maio e outros 1.201 previstos para junho, totalizando 3.041 cortes. A Azul também apresentou forte retração, com 1.243 voos cancelados em maio e 973 em junho, somando 2.216. Já a Latam fez um ajuste mais moderado, com 498 voos a menos em maio e 537 em junho. Gol e Azul concentram mais de 86% da redução total.

A dimensão da crise fica evidente na evolução do preço do QAV. Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que o combustível praticamente dobrou em menos de três meses, passando de R$ 3,35 por litro em meados de fevereiro para R$ 6,65 no início de maio — uma alta de 98,4%.

Após sucessivos reajustes, a Petrobras anunciou nesta segunda-feira (1º) uma redução de 14,2% no preço do combustível. Antes disso, a estatal havia promovido aumentos de 9% em março, 55% em abril e 18% em maio.

O impacto também chega ao consumidor. Segundo a Anac, as passagens aéreas subiram 17,8% em março na comparação com o mesmo mês de 2025, além de alta de 14,5% em relação a fevereiro.

Atualmente, cerca de 21% do querosene de aviação consumido no país é importado, enquanto a distribuição é majoritariamente concentrada na Petrobras.

De acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos, o custo adicional para as companhias aéreas foi de R$ 719 milhões apenas em abril. Considerando também maio, o impacto já alcança R$ 1,84 bilhão.

Diante do cenário, o governo federal decidiu oferecer uma linha emergencial de crédito de até R$ 1 bilhão para o setor aéreo, com o objetivo de mitigar os efeitos da alta do combustível. Os recursos serão destinados ao capital de giro das empresas, para garantir a continuidade das operações.

Além disso, já está estruturado um pacote mais amplo por meio do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac), com previsão de cerca de R$ 4 bilhões em financiamentos. Diferentemente da linha emergencial, esses recursos seguem o modelo tradicional, com intermediação de instituições financeiras e exigência de contrapartidas.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) afirmou, em nota, que reconhece a importância das medidas anunciadas pelo governo para reduzir os impactos da alta do QAV e preservar a conectividade aérea no país.

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