quarta-feira, 07 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

O preço do isolamento

Em menos de três meses, o querosene de aviação (QAV) praticamente dobrou de preço no Brasil. O litro, que custava R$ 3,35 em meados de fevereiro, chegou a R$ 6,65 no início do mês passado, maio, uma alta de 98,4%, impulsionada pela escalada do petróleo no mercado internacional em razão dos conflitos no Oriente Médio e  amplificada por uma sequência de reajustes da Petrobras, que acumulou aumento superior a 80% no período. O resultado é uma sangria de mais de 6.200 voos cancelados em dois meses e um rombo de R$ 1,84 bilhão no caixa das companhias aéreas. E isso apenas em abril e maio.

Os números absolutos impressionam, mas é nos números proporcionais que a crise revela sua face mais perversa. São Paulo e Rio de Janeiro lideram em volume de cancelamentos, mas é Pernambuco, com queda de 12,8% na oferta de voos em maio, que ilustra o problema central: as rotas regionais, menos frequentes, com aeronaves menores e margens mais estreitas, são as primeiras a serem cortadas quando o custo do combustível pressiona os balanços. Bahia, Goiás e Espírito Santo repetem o padrão. A retração não é homogênea; ela pune mais quem já é menos servido.

Gol e Azul concentram mais de 86% dos cortes. Não é coincidência. São as duas companhias com maior exposição à aviação regional e ao interior do País. A Latam, com malha mais concentrada nos grandes centros e nas rotas internacionais, fez ajuste proporcionalmente menor. Quando Gol e Azul enxugam operações, são as cidades médias, os destinos turísticos fora do eixo e as capitais do Norte e Nordeste que sentem primeiro. E mais.

A resposta do Governo Federal, uma linha emergencial de até R$ 1 bilhão para capital de giro e um pacote mais amplo de R$ 4 bilhões via Fundo Nacional de Aviação Civil, vai na direção correta, mas precisa ser avaliada com realismo. Crédito de giro evita falências imediatas, não resolve o problema estrutural. Com 21% do querosene consumido no País sendo importado e a distribuição majoritariamente nas mãos da Petrobras, o mercado de QAV brasileiro opera com uma concentração que amplifica choques externos em vez de amortecê-los. A redução de 14,2% anunciada pela estatal no início desta semana é bem-vinda, mas chega depois de aumentos acumulados que tornaram o combustível proibitivo para as rotas de menor densidade.

O BE News entende que o Governo precisa ir além do socorro emergencial. Há três frentes que não podem esperar. A primeira é a diversificação da cadeia de abastecimento de QAV, com incentivos reais à entrada de novos distribuidores e à ampliação da capacidade de refino dedicada ao combustível de aviação, medida que reduz a dependência da volatilidade internacional e da política de preços de uma única estatal. A segunda é a revisão da estrutura tributária incidente sobre o querosene nas rotas regionais, onde a carga fiscal representa parcela ainda maior do custo total e onde o mercado não tem escala para absorver choques sem cancelar voos. A terceira é a aceleração do marco regulatório para o combustível sustentável de aviação (SAF), em que o Brasil tem vantagem comparativa real na produção de biomassa e que pode, no médio prazo, reduzir a exposição do setor às oscilações do petróleo.

A aviação regional não é luxo. Em um país com as dimensões e a desigualdade territorial do Brasil, ela é infraestrutura, tão essencial quanto rodovia ou ferrovia para garantir que o desenvolvimento econômico alcance além das capitais. Deixar que uma crise de combustível corroa sistematicamente essa malha, sem uma resposta estruturada e de longo prazo, é aceitar que a conectividade do território nacional seja um privilégio de quem mora nos grandes centros. Esse preço é alto demais para ser pago em silêncio.

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TAGS Aviação governo federal QAV

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