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Bayard Umbuzeiro Neto

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Porto de Santos não pode mais esperar

A pergunta que devemos fazer não é se o canal precisa ser aprofundado. A questão é: quanto tempo ainda podemos perder discutindo uma necessidade que o mercado já reconheceu há muitos anos?

A decisão judicial que suspendeu a ordem de serviço para o aprofundamento do canal de navegação do Porto de Santos (SP) reacende uma discussão que o setor conhece há décadas. Mais do que um debate sobre contratos, recursos administrativos ou procedimentos licitatórios, a questão central é outra: qual é o custo de continuar adiando uma obra considerada estratégica para o futuro do principal porto da América Latina?

Há pelo menos duas décadas, especialistas, operadores portuários, armadores, exportadores e autoridades discutem a necessidade de ampliar a capacidade logística do complexo santista. Nesse período, o comércio exterior brasileiro cresceu, a movimentação de cargas bateu sucessivos recordes e os navios se tornaram maiores, mais eficientes e mais exigentes em relação à infraestrutura portuária.

O mundo mudou. O transporte marítimo também.

O Porto de Santos movimenta, hoje, volumes muito superiores aos registrados no início dos anos 2000. Ao mesmo tempo, a indústria naval investiu em embarcações cada vez maiores, capazes de transportar mais carga por viagem e reduzir custos logísticos. Esses ganhos de escala são fundamentais para a competitividade das cadeias globais de suprimentos.

No entanto, para receber esses navios, não basta ter terminais modernos ou equipamentos de última geração. É preciso garantir condições adequadas de navegação.

O canal de acesso é a porta de entrada do porto. E, quando essa porta se torna um limitador operacional, todo o sistema perde eficiência.

O aprofundamento do canal de 15 para 16 metros não deve ser analisado apenas como uma obra de engenharia. Trata-se de uma intervenção diretamente ligada à competitividade do comércio exterior brasileiro. Permitir a escala de embarcações maiores significa ampliar a capacidade operacional, reduzir restrições, aumentar a atratividade do porto e criar condições para absorver o crescimento esperado para as próximas décadas.

Em um cenário global cada vez mais competitivo, os armadores buscam eficiência. Os investimentos seguem a lógica da produtividade. Nenhuma companhia marítima toma decisões com base apenas em tradição ou localização geográfica. Ela escolhe os portos capazes de oferecer segurança operacional, previsibilidade e capacidade para atender às demandas da frota moderna.

É justamente por isso que a discussão sobre o aprofundamento do canal ultrapassa os limites da comunidade portuária.

Estamos falando de uma infraestrutura que impacta exportadores, importadores, transportadores, operadores logísticos, indústrias e, de modo geral, a própria economia brasileira. Cada ganho de eficiência operacional se reflete em custos menores, maior competitividade e melhores condições para os produtos brasileiros disputarem mercados internacionais.

Naturalmente, qualquer processo licitatório deve observar rigor técnico, transparência e segurança jurídica. Esse é um princípio inegociável em qualquer investimento público de grande porte. Entretanto, também é necessário compreender que a postergação permanente de projetos estruturantes gera consequências econômicas reais.

O Porto de Santos está diante de uma oportunidade histórica de se preparar para os próximos 30 ou 40 anos. A expansão da movimentação de cargas, os projetos de novos terminais, os investimentos privados em curso e as perspectivas de crescimento do comércio exterior apontam para uma única direção: o porto precisará de mais capacidade.

A pergunta que devemos fazer não é se o canal precisa ser aprofundado. A questão é: quanto tempo ainda podemos perder discutindo uma necessidade que o mercado já reconheceu há muitos anos?

O Porto de Santos consolidou sua posição como principal plataforma logística do país. Para manter essa liderança, será necessário continuar investindo em infraestrutura, tecnologia e eficiência operacional. E, entre todas as obras estratégicas em discussão atualmente, poucas são tão fundamentais quanto garantir que os navios do futuro, maiores e mais modernos, possam acessar o complexo sem restrições.

Porque a competitividade de um porto não se mede apenas pelo volume de cargas que ele movimenta hoje. Ela é medida, principalmente, pela capacidade de receber o amanhã.

Bayard Umbuzeiro Neto escreve para o BE News quinzenalmente, com seus artigos publicados sempre às quintas-feiras. 

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