Quando a torcida entra na empresa: liderança, comunicação e bom senso em tempos de Copa
A verdade é que grandes equipes não são formadas apenas por talentos individuais. São formadas por pessoas que compartilham propósito, confiança e senso de pertencimento. Talvez seja por isso que o futebol desperte tanto interesse. Dentro de campo, ninguém vence sozinho. O brilho individual tem valor, mas é a capacidade de jogar coletivamente que determina o resultado. Nas organizações ocorre o mesmo.
Em períodos de Copa do Mundo, o País muda de ritmo. As ruas ganham cores, as conversas nos corredores assumem novos temas e até os profissionais mais reservados encontram espaço para comentar uma escalação, um lance polêmico ou um palpite sobre o próximo jogo.
Para alguns líderes, esse tipo de mobilização coletiva representa um problema. Para outros, uma oportunidade.
A diferença entre uma percepção e outra costuma revelar muito sobre o modelo de liderança praticado dentro das organizações.
Há gestores que enxergam qualquer manifestação de entusiasmo como ameaça à produtividade. Reagem com rigidez, impõem restrições excessivas, evitam diálogos e reforçam uma lógica de controle que pouco contribui para o engajamento das equipes. Em nome da disciplina, acabam produzindo distanciamento.
Outros compreendem que liderar pessoas exige reconhecer que elas não deixam suas emoções do lado de fora quando entram na empresa. São profissionais, mas também são pais, mães, filhos, torcedores, cidadãos e indivíduos com interesses diversos. Ignorar essa realidade não torna a gestão mais eficiente. Apenas a torna menos humana.
Peter Drucker afirmava que a cultura organizacional devora a estratégia no café da manhã. A frase permanece atual porque nos lembra que resultados sustentáveis não são construídos apenas por processos, metas e indicadores. São construídos, sobretudo, por pessoas.
Em um ambiente marcado por diferentes gerações, repertórios e expectativas, a comunicação do líder torna-se um ativo estratégico. Não se trata de ser permissivo nem de transformar a empresa em arquibancada. Trata-se de exercer discernimento.
Uma liderança madura compreende que momentos de grande mobilização coletiva exigem diálogo claro, alinhamento de expectativas e acordos transparentes.
Se haverá flexibilização de horário, ela é comunicada. Se determinados setores precisam manter operação integral, isso é explicado. Se existem metas e entregas inegociáveis, elas são reforçadas com antecedência.
Quando a comunicação é aberta, as pessoas tendem a colaborar. Quando prevalece o silêncio, surgem ruídos, interpretações equivocadas e insatisfações desnecessárias.
Daniel Goleman, ao tratar da inteligência emocional, destaca a empatia como uma das competências essenciais da liderança. Empatia, entretanto, não significa concordar com tudo. Significa compreender o contexto das pessoas para tomar decisões equilibradas.
É justamente nesses momentos que se percebe a diferença entre o chefe e o líder. O chefe impõe. O líder explica. O chefe controla. O líder influencia. O chefe exige comprometimento. O líder constrói comprometimento.
Enquanto um se apoia na autoridade do cargo, o outro fortalece sua legitimidade por meio da confiança.
No setor portuário, logístico, de transportes e no agronegócio, essa reflexão ganha relevância adicional. São segmentos em que operações não podem simplesmente parar. Há navios para atracar, cargas para movimentar, entregas para cumprir, contratos para honrar e cadeias produtivas inteiras dependendo da eficiência operacional.
Nesses ambientes, a liderança não pode abrir mão da disciplina. Mas também não deve abrir mão da sensibilidade.
As melhores equipes são aquelas que entendem claramente seus compromissos e, ao mesmo tempo, percebem que existe respeito mútuo na relação com seus gestores.
Quando isso acontece, a colaboração surge de forma natural. Os profissionais se organizam, ajustam agendas, compensam horários quando necessário e assumem responsabilidade pelos resultados. Não porque foram pressionados, mas porque desejam corresponder à confiança recebida.
A verdade é que grandes equipes não são formadas apenas por talentos individuais. São formadas por pessoas que compartilham propósito, confiança e senso de pertencimento.
Talvez seja por isso que o futebol desperte tanto interesse. Dentro de campo, ninguém vence sozinho. O brilho individual tem valor, mas é a capacidade de jogar coletivamente que determina o resultado.
Nas organizações ocorre o mesmo.
Os líderes que compreendem essa dinâmica aproveitam momentos de mobilização coletiva para fortalecer vínculos, aproximar pessoas e reforçar a cultura organizacional.
Os que insistem em liderar apenas pelo comando perdem uma oportunidade valiosa de conexão.
A Copa passa. O campeonato termina. A rotina retorna ao normal. Mas a forma como os líderes se comunicam permanece na memória das equipes por muito mais tempo.
E, no fim das contas, são essas lembranças que ajudam a definir quem apenas ocupa um cargo de liderança e quem verdadeiramente lidera.
Cândice La Terza escreve quinzenalmente para o BE News, com seus textos sendo publicados às quartas-feiras.