Combustíveis verdes: uma oportunidade que não pode ser perdida
O litoral de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, vai receber uma usina de hidrogênio e amônia verdes com R$ 12 bilhões em investimentos e capacidade inicial de 500 megawatts. A iniciativa, que já conta com licença ambiental prévia e integra uma parceria entre empresas brasileiras e alemãs, é a mais recente confirmação de uma vocação que o Nordeste brasileiro acumulou quase sem querer: a região que concentra a maior geração eólica e solar do País e que, ao mesmo tempo, enfrenta o maior índice de curtailment — energia produzida que a rede de transmissão não consegue absorver —, tornou-se o lugar natural para uma indústria que transforma excedente elétrico em combustível exportável.
Nesse cenário, resta uma pergunta que o Brasil ainda não respondeu de forma satisfatória. O que o País vai fazer com essa produção além de vendê-la ao exterior?
O modelo que se desenha em Areia Branca, em Pecém (CE) e em Suape (PE) é, em sua essência, o de um exportador de matéria-prima verde. A usina produz hidrogênio, converte parte em amônia, para facilitar o transporte, e embarca o resultado num terminal portuário dedicado, com destino à Europa e à Ásia. É um modelo viável, financeiramente atraente e tecnicamente bem estruturado, especialmente para a Alemanha, que assinou acordos de longo prazo com o Brasil justamente para garantir fornecimento de hidrogênio verde em quantidade suficiente para a descarbonização de sua indústria pesada. O risco embutido nesse arranjo é familiar para quem conhece a história econômica brasileira: o País que exporta o insumo e importa o produto final, entregando ao comprador internacional o valor agregado que poderia ter ficado aqui.
O hidrogênio verde interessa exatamente aos setores que dependem de grandes volumes de energia e enfrentam dificuldades para eletrificar suas operações: siderurgia, fabricação de fertilizantes, transporte marítimo, aviação e indústria química. O Brasil tem, ou pode ter, capacidade de competir em todos esses segmentos. A produção de aço verde, usando hidrogênio no lugar do coque como redutor no processo siderúrgico, é hoje uma das fronteiras mais disputadas da indústria global, e o país que controla o hidrogênio tem vantagem de custo estrutural nessa corrida. O mesmo vale para fertilizantes nitrogenados de baixo carbono: o Brasil é o maior importador mundial de fertilizantes, gastando dezenas de bilhões de dólares por ano para sustentar o agronegócio que sustenta suas exportações. Produzir amônia verde domesticamente, com o hidrogênio que já será gerado no Nordeste, poderia reduzir essa dependência de forma substancial. Mas isso exige que a cadeia produtiva seja desenvolvida aqui, e não apenas exportada em estado bruto.
O BE News defende que o marco legal do hidrogênio de baixa emissão, aprovado pelo Congresso em 2024, foi um avanço necessário. Mas é apenas o começo do que precisa ser construído. Os incentivos fiscais previstos na legislação, como a suspensão de PIS/Pasep e Cofins para produtores habilitados e os créditos para comercialização, estão corretos como estímulo à produção. O que falta é uma política industrial que complemente a política energética: incentivos para que a amônia verde produzida no Nordeste alimente fábricas de fertilizantes no Brasil, para que o hidrogênio verde movimente navios e caminhões brasileiros antes de ser embarcado para a Europa, para que os estaleiros que estão sendo discutidos no Nordeste Export possam construir as embarcações movidas a hidrogênio que o mundo demandará nas próximas décadas. A diferença entre exportar hidrogênio e exportar aço verde é, grosso modo, a diferença entre exportar minério de ferro e exportar automóveis. E o Brasil conhece bem o custo histórico de ter ficado, por décadas, do lado errado dessa equação.
O momento é favorável como raramente foi. A Europa precisa do hidrogênio brasileiro e está disposta a pagar por ele. Essa demanda cria o fluxo de caixa que viabiliza as primeiras usinas, como Areia Branca, e constrói a infraestrutura de produção, certificação e logística que será necessária para qualquer passo seguinte. Não se trata de recusar os contratos de exportação; trata-se de negociá-los como ponto de partida de uma cadeia industrial, não como destino final de uma vocação de fornecedor. Outros países que estão na disputa pelo mercado global de hidrogênio verde, como Chile, Austrália, Marrocos, já pensam em termos de industrialização, não apenas de geração. O Brasil, com sua matriz elétrica, sua biomassa e sua escala produtiva, tem condições de chegar mais longe do que qualquer um deles. Falta o projeto.
Areia Branca merece ser celebrada. R$ 12 bilhões no litoral potiguar, numa parceria com a Alemanha, com licença ambiental e estudos técnicos em andamento, são uma vitória concreta numa agenda que o Nordeste leva anos construindo. Mas a usina que vai ser inaugurada em algum momento desta década deve ser o começo de uma estratégia industrial, não a estratégia em si. O Brasil já foi o maior exportador de café do mundo sem conseguir reter o valor da torrefação, da embalagem e da distribuição. Não pode repetir esse roteiro com a energia do século XXI.