Acordo Mercosul-União Europeia amplia oportunidades para a logística brasileira
Independentemente do tempo necessário para a entrada em vigor do acordo, uma tendência já está claramente desenhada. O comércio exterior continuará exigindo operações mais eficientes, maior integração entre os diferentes elos da cadeia logística e investimentos capazes de sustentar o crescimento das próximas décadas.
Quem acompanha o comércio exterior sabe que grandes acordos comerciais costumam atrair a atenção pelo potencial de ampliar mercados e estimular novos negócios. Mas existe um aspecto que nem sempre ganha o mesmo destaque: a capacidade da infraestrutura logística de acompanhar esse movimento. No fim das contas, um acordo pode abrir portas para novas oportunidades, mas é a eficiência da cadeia logística que determina a velocidade com que elas se transformam em resultados.
É sob essa perspectiva que vejo o avanço das negociações entre Mercosul e União Europeia. Embora o acordo ainda dependa da conclusão do processo de ratificação, ele já sinaliza um ambiente de maior integração econômica entre dois importantes blocos comerciais. Para o Brasil, isso representa a possibilidade de ampliar exportações, diversificar mercados, fortalecer a indústria e ampliar a participação das empresas brasileiras nas cadeias globais de valor.
Naturalmente, um cenário como esse desperta o interesse de exportadores, importadores, armadores e operadores logísticos. Afinal, quanto maior a integração entre mercados, maior tende a ser a circulação de mercadorias. Mas esse aumento de fluxo traz consigo uma responsabilidade igualmente importante: garantir que a infraestrutura acompanhe esse crescimento.
Nos últimos anos, o comércio internacional passou por mudanças profundas. A pandemia, as tensões geopolíticas e a reorganização das cadeias globais de suprimentos mostraram que competitividade deixou de estar restrita ao custo de produção. Hoje, a capacidade de entregar um produto com previsibilidade, eficiência e segurança pesa tanto quanto sua qualidade. A logística passou a ocupar um lugar estratégico nas decisões das empresas, influenciando desde a escolha de fornecedores até a definição das rotas utilizadas para acessar mercados internacionais.
Nesse contexto, os portos ganharam ainda maior relevância. Eles deixaram de ser apenas pontos de entrada e saída de cargas, para assumir um papel decisivo na competitividade do comércio exterior. Um terminal eficiente reduz tempos de operação, aumenta a confiabilidade das escalas, melhora a utilização dos ativos logísticos e contribui para diminuir custos ao longo de toda a cadeia. Esses fatores fazem diferença para quem exporta, importa ou depende de uma operação previsível para manter sua competitividade.
Há um ponto que considero essencial nessa discussão. Infraestrutura não pode ser construída quando a demanda já existe. Ela precisa estar pronta antes.
Essa é uma lógica que, muitas vezes, passa despercebida. Diferentemente de outros investimentos, obras de infraestrutura exigem planejamento, licenciamento, engenharia e execução que podem levar anos. Quando um novo fluxo comercial começa a crescer, já é tarde para iniciar esse processo. Os países e os portos que conseguem aproveitar melhor as oportunidades são justamente aqueles que investiram antes, antecipando tendências e preparando sua capacidade operacional para o futuro.
Essa reflexão vale para o acordo entre Mercosul e União Europeia, mas também para qualquer movimento de expansão do comércio internacional. O Brasil reúne condições para ampliar sua presença no mercado global, mas essa capacidade dependerá, em grande medida, da evolução de sua infraestrutura logística. Não basta produzir mais ou acessar novos mercados. É preciso garantir que a carga circule com eficiência, desde a origem até o destino final.
Nesse cenário, investimentos estruturantes fazem toda a diferença. O aprofundamento do canal de acesso da Baía da Babitonga (SC) é um exemplo disso. Ao permitir a operação de embarcações de maior porte, amplia a eficiência das escalas, aumenta a capacidade operacional da região e fortalece a competitividade da logística brasileira. Mais do que beneficiar um terminal específico, trata-se de um projeto que amplia as condições para que toda a cadeia de comércio exterior responda ao crescimento da demanda de forma mais eficiente.
Essa mesma visão orienta as decisões que temos tomado no Porto Itapoá (SC). Os investimentos contínuos em expansão da capacidade operacional, tecnologia, automação e modernização da infraestrutura não são uma resposta a uma demanda imediata. São parte de um planejamento construído com foco no longo prazo, justamente porque acreditamos que a infraestrutura precisa estar preparada antes que as oportunidades se concretizem.
Independentemente do tempo necessário para a entrada em vigor do acordo, uma tendência já está claramente desenhada. O comércio exterior continuará exigindo operações mais eficientes, maior integração entre os diferentes elos da cadeia logística e investimentos capazes de sustentar o crescimento das próximas décadas. O desafio do Brasil não será apenas ampliar sua participação nas correntes internacionais de comércio, mas criar as condições para competir em um ambiente cada vez mais exigente.
Acredito que esse seja o principal legado dessa discussão. Grandes acordos comerciais ampliam possibilidades, aproximam mercados e criam novas oportunidades de negócios. Mas transformar esse potencial em desenvolvimento econômico depende de algo muito concreto: infraestrutura, planejamento e visão de longo prazo. É essa combinação que permitirá ao Brasil fortalecer sua posição no comércio internacional e aproveitar, de forma consistente, as oportunidades que estão sendo construídas hoje.
Ricardo Arten. CEO do Porto Itapoá.