quarta-feira, 07 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Editorial

Os primeiros resultados do acordo Mercosul-União Europeia

Os dados divulgados pela Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (ApexBrasil) são, ao mesmo tempo, encorajadores e preliminares. As exportações brasileiras para a União Europeia cresceram 26% em maio e junho, exatamente os dois primeiros meses de vigência provisória do acordo comercial entre o Mercosul e o bloco europeu, somando US$ 2 bilhões a mais do que no mesmo período de 2025. O presidente da ApexBrasil, Laudemir André Müller, foi preciso ao recusar a tentação de atribuir todo o crescimento ao acordo: efeitos de sazonalidade, câmbio e demanda setorial podem explicar parte da alta. Mas a concentração do avanço justamente nos dois meses seguintes à entrada em vigor das reduções tarifárias é um sinal que não deve ser descartado como coincidência. O acordo está funcionando. A questão agora é se o Brasil está se preparando para aproveitar o que ele abre.

A lista dos produtos com maior crescimento nas exportações para a Europa no primeiro semestre é reveladora da extensão do que está em jogo: mel com alta de 246,7%, partes de turborreatores com crescimento de 141,9%, óleo essencial de laranja avançando 110,1%, manga crescendo 36,5% e extrato de café com expansão de 36%. Todos eles refletem nichos em que a redução de tarifas transformou produtos brasileiros já competitivos em opções ainda mais atrativas para o comprador europeu. Mas o dado mais estratégico não está nos produtos que já exportavam e cresceram; está na pauta que ainda não foi acessada. O levantamento da ApexBrasil identifica 167 oportunidades em Santa Catarina, 127 em São Paulo, 76 no Paraná e 74 no Rio Grande do Sul, produtos que já têm produção e histórico de exportação para outros mercados e que, com a redução das tarifas europeias, passam a ter condições de competir num bloco de mais de 400 milhões de consumidores com renda per capita entre as mais altas do mundo. Essas oportunidades não se converterão em contratos automaticamente. Precisam de prospecção, certificação, adequação a normas sanitárias e fitossanitárias europeias, frequentemente mais exigentes do que as americanas, e presença comercial que leva meses ou anos para ser construída.

O contraste com o mercado americano é o contexto que torna os dados da Europa ainda mais relevantes. No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13%, para US$ 17,4 bilhões, reflexo direto das tarifas aplicadas pela administração Donald Trump com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974. A Europa não apenas compensou parte dessa perda; mostrou ser um destino estruturalmente mais estável. O acordo Mercosul–União Europeia tem regras claras, mecanismos de resolução de disputas e processo de aprovação institucional que, mesmo lento — ainda aguarda análise do Tribunal de Justiça da União Europeia e votação no Parlamento Europeu —, confere previsibilidade que nenhum decreto tarifário unilateral pode oferecer. Para o exportador brasileiro que precisa tomar decisões de investimento com horizonte de cinco ou dez anos, essa previsibilidade tem valor econômico mensurável.

O BE News entende que o crescimento das exportações para a Europa nos primeiros meses do acordo é o resultado de uma vitória diplomática de duas décadas e que, em especial, desperdiçá-la por falta de política industrial de suporte seria um erro de proporção equivalente. Há frentes em que o Governo Federal precisa agir para que os números de maio e junho se tornem tendência, e não episódio. A primeira é a infraestrutura logística de frios e certificação: produtos como mel, frutas tropicais, carnes e derivados alimentares precisam de cadeia de frio confiável do produtor ao navio e de sistemas de rastreabilidade compatíveis com as exigências europeias, tema que este jornal tratou ao analisar a logística de exportação de carne bovina. Também é necessário dar suporte às pequenas e médias empresas das regiões com maior número de oportunidades identificadas — Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e os estados nordestinos — para que consigam certificar produtos, abrir filiais de representação ou contratar agentes comerciais na Europa sem depender exclusivamente de recursos próprios. E há ainda a ratificação plena do acordo, que precisa ser prioridade da agenda parlamentar e diplomática do País. Sem ela, a vigência provisória pode ser interrompida por decisão judicial ou política europeia, revertendo os ganhos que acabam de começar.

Os US$ 2 bilhões a mais de exportações do Brasil para a União Europeia em dois meses são um resultado real, gerado por um acordo real, que começa a produzir efeitos reais. O País deve celebrá-los, tendo, na mesma medida, de tratar o acordo Mercosul–União Europeia como o ativo estratégico de longo prazo que ele é, e não apenas como notícia favorável num semestre marcado pelo conflito tarifário com Washington.

Compartilhe:
TAGS

Leia também