Rio Grande cresce. Os gargalos que limitam esse crescimento, também.
Os portos do Rio Grande do Sul movimentaram 21,53 milhões de toneladas no primeiro semestre do ano. É o melhor resultado dos últimos cinco anos, com um crescimento de 5,27% sobre o mesmo período do ano anterior. Para um complexo portuário que atravessou, em 2024, as enchentes mais devastadoras de sua história recente, o dado tem significado que vai além da estatística comercial: é a confirmação de que a infraestrutura resistiu, a operação foi recuperada e a demanda pelo porto gaúcho segue crescente. O Porto do Rio Grande, responsável por mais de 96% de toda a carga movimentada no sistema, avançou 5,56% e confirmou sua posição como o principal escoadouro do agronegócio do sul do Brasil.
Os números do agronegócio explicam a maior parte do crescimento. Soja em grão avançou 19,21%, farelo de soja cresceu 15,76% e milho registrou alta expressiva de 77,95% — este último, o reflexo da safra recorde do Rio Grande do Sul e dos estados vizinhos que utilizam o porto como rota de exportação para China, Vietnã, Coreia do Sul e Indonésia. A concentração de grãos agrícolas, cereais e insumos para fertilizantes em 45,73% de toda a carga movimentada é, ao mesmo tempo, o maior ativo e a maior vulnerabilidade do sistema portuário gaúcho: um porto com essa dependência de commodities agrícolas é altamente sensível a variações de safra, de câmbio e de demanda chinesa, que, não por acaso, respondeu por 26,45% dos embarques e 22,54% das importações no semestre.
O desempenho do Tecon Rio Grande, operado pela Wilson Sons, merece destaque específico. Os 489.823 TEU movimentados no semestre, alta de 7,16%, colocam o terminal numa trajetória de crescimento consistente que antecede a crise das enchentes e que ela não interrompeu. Para um porto localizado no extremo sul do País, a movimentação de contêineres é estratégica não apenas como indicador de atividade industrial e agroindustrial, mas como sinal de que o Rio Grande do Sul mantém conexão com as rotas marítimas internacionais que seus concorrentes portuários de outros estados também disputam. Manter e ampliar essa capacidade é condição para que o complexo gaúcho capture parte do crescimento de cargas industrializadas que o acordo Mercosul–União Europeia tende a gerar nos próximos anos.
O BE News considera que o resultado do primeiro semestre é motivo de reconhecimentoe, principalmente, de atenção redobrada à agenda de investimentos que determinará se o crescimento atual tem sustentação ou teto próximo. Rio Grande opera com restrições de calado que limitam o porte das embarcações que podem acessar o porto em plena carga. A concessão do canal de acesso aquaviário, cujo processo este jornal acompanhou ao tratar do caso de Itajaí (SC) como modelo, precisa estar na agenda do complexo gaúcho com o mesmo grau de prioridade. A retroárea do porto, pressionada pelo crescimento dos granéis sólidos, exige expansão de armazenagem e de acessos ferroviários e rodoviários que reduzam o congestionamento nos picos de safra. E a diversificação da pauta, além dos grãos, é o único caminho para que o crescimento dos portos gaúchos não fique refém das oscilações de uma única cadeia produtiva.
O Rio Grande do Sul mostrou, neste semestre, que sabe se recuperar. Os portos que cresceram sobre as enchentes de 2024 merecem a infraestrutura, a regulação e os investimentos que consolidem esse crescimento como tendência permanente, não como um desempenho notável num ano de recuperação.